OK
Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

  • Sexta-Feira, 14 de Outubro de 2011
    Tributo aos professores
  • Alguns colegas me escreveram contando como alguns professores foram marcantes em suas vidas. Todos nós temos lembranças e experiências passadas na escola que nunca mais esqueceremos. Nos textos a seguir podemos perceber que mesmo de gerações diferentes , todos nós tivemos fatos especiais com mestres maravilhosos e essa é uma maneira de homenageá-los e dizer o quanto somos gratos.
    Após uma entrevista que fiz com a professora Eneida, recebi um pedido de um aluno que se dizia muito emocionado ao vê-la depois de tanto tempo e, que morando atualmente no exterior gostaria de contatá-la.
    Ele fez um comentário no blog , após ter assistido à entrevista e eu estou copiando:
    **********************************************************************************


                                                                                                                          Por Israel Burman



    Fui aluno da D. Eneida na 1a, 2a e 4a series do Ginasio que cursei de 1961 a 1964 no IECC. Eu comecei a gostar de Matemática na 1a série e tive a grande sorte de cair com a D. Eneida neste ano. Eu hoje tenho 63 anos, com um mestrado em Engenharia pela Escola Politécnica e tive excelentes professores em toda minha carreira acadêmica mas se tem um professor em particular a quem devo a base na qual construi tudo o que sou hoje certamente e a D. Eneida. Ela incutiu em mim o raciocínio lógico e me ensinou a concentrar e focar no que faço. Todas as minhas conquistas nestes meus anos de vida foram construidas com base nos fundamentos incutidos em mim pela D. Eneida.
    Eu gostava muito da matéria com a qual tinha relativa facilidade mas muitos dos outros alunos tinham serias dificuldades. Para ajudar os outros alunos a D. Eneida me pediu para dar aulas de reposição aos outros alunos, o que eu fiz por quase um ano todos os dias em que tinhamos aula de Matemática, as 7 horas da manhã. No final do ano, em agradecimento por estas aulas, a D. Eneida me presenteou com um livro de Matemática com uma dedicatória redigida por ela. Pois bem, após 50 anos, tendo mudado de residência várias vezes e tendo morado em 3 paises diferentes, nao tenho mais nenhum dos meus livros curriculares, com excessão deste um. Este continua comigo e me acompanha onde vou. Eu o mostro com orgulho a meus filhos, sobrinhos e amigos próximos. Ele representa o início do que sou hoje.

    Meus agradecimentos e profundo respeito a D. Eneida.
    A voce Patricia, parabens pela excelente entrevista! Me deixou muito emocionado.( a entrevista encontra-se no mês de setembro no blog caetanistas 78).


    Bem, eu liguei para D. Eneida e contei que um aluno chamado Israel Burman queria o e-mail dela ( sim, aos 91 anos ela escreve e-mails e atualmente está fazendo uma viagem para a China!). Ela prontamente me respondeu: Israel Burman, aluno brilhante, foi premiado e eu fiz questão de comprar um livro pra ele!
    Eles já se corresponderam e pelo que sei foi muito emocionante!

     

    Livro de 1961

     

    Dedicatória de D. Eneida

     

    2011- D. Eneida de óculos ao centro, ao seu lado D. Yole, professora de Português no encontro do dia 20/11 no auditório de nossa escola, atual Secretaria da Educação
    Foto- Guilherme Braga

    **********************************************************************************


    Tributo ao Professor Laurindo
    Fernando L.M. Amaral

    Oswaldo Laurindo foi nosso professor de Física no IECC no início dos anos 70, quando fazíamos o curso científico. Nos achávamos adultos com menos de 18 anos. E achávamos que  todos os adultos eram velhos. Hoje, com menos de 60 anos, ainda não nos sentimos velhos.
    Ele sempre usava um longo avental branco sobre um impecável terno azul escuro e clássica gravata. E se fazia acompanhar de sua pesada mala de couro, preta com alça de mão, e de um enorme guarda-chuva, por precaução.
    O professor Laurindo sempre foi um homem muito bem humorado, alegre, bem disposto, aberto ao diálogo, conversador mesmo. Nunca tivemos nenhum atrito sério com ele e nunca se meteu em nossas vidas além do que era necessário.
    Para muitos, no entanto, para ser perfeito ele precisaria deixar de professar sua adoração pelo São Paulo Futebol Clube, time do qual - sempre em tom de blague - dizia-se torcedor incondicional. Ele sempre brincava conosco sobre isso. E nós encarávamos essa brincadeira com muito bom humor também. Mas claro, se ele fosse corintiano tudo seria perfeito. Exceto para nossos diversos colegas palmeirenses, santistas e outros tantos são-paulinos, como ele.
    Ninguém se lembra de como ele fazia para manter a disciplina na sala de aula.
    E ninguém se lembra que a sala fosse bagunçada.
    É incrível imaginar, mas havia um respeito tácito à palavra dele. Enquanto ele explicava, ouvíamos tudo com atenção e muito boa vontade. Até que, de repente, no meio de uma explicação séria, por alguma inusitada associação de ideias, algo lembrava algum símbolo ligado ao futebol.
    Tensão no ar.
    Súbito alguém fazia uma piada e a classe explodia em gargalhadas. Ele a ouvia, se empolgava e gargalhava também. Então, se a mesma fizesse gozação com o São Paulo, ele corrigia a piada. Recontava-a e gargalhava novamente. E nos punha a rir de nossos próprios times...
    A zoação preferida era com o Corinthians, lógico, mas também sobrava gozação para todos os outros. E de repente, sem nos darmos conta, lá estávamos nós compenetrados novamente, divagando nas ideias da Física, ouvindo-o nos ensinar, fazendo-lhe perguntas e respondendo-lhe, seriamente, às suas arguições. Ou então, estávamos no Laboratório de Física assistindo a demonstrações que, praticamente, só se dispunha no IECC. Que privilégio!
    Quantos papéis o professor Laurindo desempenhou? Foi um sábio, pai, psicólogo, amigo? Foi conselheiro, um irmão mais velho, ator? Foi um modelo a ser seguido? Talvez tenha sido tudo isso. Talvez tenha sido muito mais. Em uma só palavra: um excelente professor.
    Desde sempre, carinhosamente, foi por nós chamado de Fafi.
    Recentemente, tivemos uma tremenda alegria ao redescobri-lo vivo. Ele está com quase 100 anos de idade e queremos que dure para sempre!
    Esperamos chegar à idade dele com a mesma alegria, saúde e disposição que apresenta hoje.
    Conferimos a ele, em vida, o título de professor inesquecível.

    Fernando Amaral é Bacharel em Física pelo Instituto de Física da USP



    **********************************************************************************

    A DEDICAÇÃO UMA PROFESSORA E A GRATIDÃO DO ALUNO

    Por Lauro Ribeiro Escobar Jr

    Alguns professores realmente podem ser considerados como Professores, com “P” maiúsculo... Aproveitando o dia dos professores que se avizinha, gostaria de fazer uma homenagem a todos eles, mas, relatando um episódio de uma Professora que tive.
    Férias de 1971... e os naturais excessos delas decorrentes... O aluno da antiga 4ª Série do Primário, do Instituto de Educação “Caetano de Campos” (IECC) retornara de um acampamento de férias com febre. Embora baixa, ela era contínua, trazendo enjoos e vômitos, perda de apetite, pele amarelada e urina avermelhada... Após os exames médicos de rotina, veio o diagnóstico médico para sua mãe:
    “ – Senhora, seu filho está com hepatite”.
    Recomendação: tratamento em casa, alimentação sem qualquer espécie de gordura, repouso... muito repouso... em um quarto separado da casa... pratos e talheres separados e devidamente esterilizados, tudo escaldado em água fervente, pois a doença é contagiosa... Prognóstico: se tudo corresse bem, em cerca de três meses poderia levar uma vida normal.
    Ora, para um menino com onze anos, ainda sem muita noção do perigo da doença, havia o que comemorar: apesar da restrição alimentar, ele teria três meses com um quarto só dele, sem ter que acordar cedo para ir à escola, sem ter que fazer lição, vendo televisão (preto e branco) o dia inteiro... pai e mãe dispensando total atenção, etc. Oba!!! Eu era esse garoto.
    A primeira semana transcorreu de forma excepcional... não tinha mais enjoos e vômitos. Tinha a vida que pedi a Deus... sem quaisquer compromissos. Inicia-se então a segunda semana... De forma diferente dos dias anteriores, não quis ligar a TV. Pensava em meus
    colegas da escola... O que estariam aprendendo? Que atividades estavam desenvolvendo? Será que eles pensavam em mim? Eu fazia falta a alguém? Não recebia visitas... todas receosas de um possível contágio...

    Só então me dei conta de que estava sozinho... Pela primeira vez na vida senti o que era solidão... E percebi que naquele momento só poderia contar mesmo com meus pais... A presença dos pais fez a sensação de solidão ser amenizada... Mas... não tinha com quem conversar, trocar ideias, falar sobre um filme ou desenho que assisti. Um joguinho de futebol?? Nem pensar... Repouso! Um desastre para um garoto de onze anos que no ano anterior vibrou com a Seleção sagrando-se tri campeã mundial de futebol, com Pelé, Jairzinho, Rivelino, Gerson e Tostão, entre outros, levando em definitivo a cobiçada Taça Jules Rimet...

    Percebi então que estes três meses de isolamento significariam um ano todo. Por que? Porque não iria à escola, não estudaria, não faria provas, não passaria de ano... seja por excesso de faltas, seja por não acompanhar mais a turma em seus conhecimentos.
    Para nós, aquele era o último ano do que chamávamos de “primário”. Após isso iríamos para o “ginásio”. Tudo iria mudar. A começar pelo número de professores. Até então era somente um para todas as matérias. A partir do ginásio cada matéria teria seu próprio professor, cada um com suas peculiaridades. Estávamos todos ansiosos, pois sabíamos que o ano seguinte tudo seria diferente. Até o pátio do colégio. No “Caetano de Campos” havia basicamente dois pátios: um deles destinado ao primário; o outro ao ginásio e colégio. Iríamos também mudar de pátio. E de andar no prédio... subiríamos um andar. E o uniforme? Também iria se modificar. Tudo isso significava um status maior na vida de um Caetanista. No entanto percebi que comigo nada iria se alterar... continuaria na mesma classe, no mesmo pátio, com o mesmo uniforme... Só uma coisa mudaria: minha turma  
    seria “promovida” e eu teria novos colegas com a turma vinda da 3ª Série. Desastre total... tristeza!! Surgiu um forte sentimento de perda. Chorei... sozinho... lágrimas sentidas...


    No entanto, no meio daquela semana, recebi uma visita inesperada após o almoço. Aliás, qualquer visita seria inesperada, pois não recebia visita alguma. Era D. Lúcia Biondo, minha professora. Primeiro ela quis saber de minha mãe como eu estava, pois sempre se preocupou com todos os seus alunos. Depois, fez questão de me ver, mesmo que de longe, somente da porta do quarto onde eu estava deitado. Tivemos um rápido diálogo e ela me desejou rápida recuperação, passando novamente a conversar com minha mãe. Após as despedidas, minha mãe conversou comigo e disse que ela havia trazido algumas lições e pontos para estudar da semana anterior. Havia feito aquilo para ver minha reação.
    Havia uma luz no fim do túnel, pensei. Não havia motivos para que ela trouxesse pontos para estudar e lições para fazer se não houvesse uma esperança de acompanhar os demais alunos... e passar de ano... Animado, no mesmo dia comecei, com a ajuda de minha mãe, a estudar os pontos fornecidos e a fazer todas as lições. Recobrei meu ânimo... em dois dias já havia devorado os pontos e feito todas aquelas enormes lições. É certo que com alguma dificuldade, pois nada como a presença do professor na sala de aula. Mas estava entusiasmado. Surgiu a indagação... será que ela voltaria na semana seguinte? – Ela voltou! Recolheu as lições. Não havia surpresa em seu olhar. Parecia que ela já sabia que eu iria me empenhar o máximo para ser merecedor de seu ato. Ela havia trazido mais pontos para estudar... e mais lições para fazer e somente me entregou o material porque eu havia feito as lições anteriores. E prometeu que voltaria, pelo menos uma vez por semana para avaliar minha evolução. Apesar de morar relativamente perto da escola, era necessário tomar uma condução. Não importava a dificuldade para a locomoção e o tempo despendido: chovendo ou fazendo sol a professora ia regularmente em casa, mostrando toda sua dedicação. E nesta ocasião deu-me um conselho que levo até hoje: “Aproveite esse tempo e leia! Leia muito! Leia tudo o que puder!”. Indicou uma coleção de livros que estava saindo nas bancas: “Literatura Infanto-Juvenil”. Eram obras clássicas. Todas elas adaptadas, com uma linguagem bem simples.
    A partir daí minha rotina mudou drasticamente. Levantava e tomava o café da manhã reforçado. Conversava com meus pais e passava a ler as aulas trazidas. Depois fazia as lições. Nas dificuldades minha mãe me socorria. Pausa para o almoço. Depois, uma rápida vista d’olhos no jornal. A folha de esportes em primeiro! À tarde comecei a ler os livros da coleção indicada. Tenho até hoje, passados mais de 40 anos, todos os 50 volumes da coleção que meu pai me trazia, sempre que saia uma nova obra nas bancas... semanalmente. A Ilha do Tesouro (Robert Stevenson), O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas), Robinson Cruzoe (Daniel Defoe), As Viagens de Gulliver (Jonatan Swift)... Ivanhoe, Moby Dick, A Ilíada e A Odisseia, Viagem ao Centro da Terra, 20 mil Léguas Submarinas... e por aí foi...
    A dedicada professora continuava passando em casa, pegando as lições feitas... e trazendo novas. Os diálogos já eram mais próximos de meu leito. A fase crítica do contágio já havia passado. Certa ocasião alertou-me que na semana seguinte eu seria submetido às temidas provas bimestrais... Ai meu Deus... nem doente eu ficaria livre disso... Redobrei os estudos. E ela realmente cumpriu a promessa... Fiz todas as provas escritas. E só para ter certeza que eu realmente sabia a matéria, ainda fez uma provinha oral para comprovar de fato meus conhecimentos. A partir daí, para o resto de minha vida, as provas já não pareciam tão terríveis assim... Ela não se surpreendeu com meu desempenho... eu tinha que fazer por merecer seu gesto de abnegação.Assim, os três meses se passaram... até de forma rápida. Totalmente recuperado, retornei às aulas. Primeiro, houve uma grande recepção dos colegas de classe. Eles realmente sentiram a minha falta. Como é bom se sentir amado pelos pais, pelos irmãos e familiares, pelos colegas de classe ... e também por sua professora!
    Com o passar dos dias integrei-me novamente às atividades da classe, dos trabalhos em grupo. Percebi que, apesar do tempo afastado, tinha condições de acompanhar a classe. Passaria de ano! Mudaria de pátio! Iria usar um novo uniforme! Um novo distintivo! No próximo ano estaria no ginásio! Com a minha turma... e com os meus colegas de primário!
    Mas uma coisa eu deveria reconhecer... isso somente aconteceu porque tive uma Professora, com “P” maiúsculo. Seria mais cômodo para ela simplesmente “deixar o barco correr”. Para quê se preocupar com um aluno? É só um aluno.... A classe tinha outros trinta. Vamos nos preocupar com estes... –Não! Disse a professora! –Devo me preocupar com todos eles!
    Portanto, mais do que aprender lições de português, matemática, ciências, história e geografia, D. Lúcia Biondo deu a maior lição que um professor pode dar a um aluno e que levo para sempre em minha alma. A lição de vida, de acreditar em cada um de seus alunos, de cativá-los com dedicação, compreensão, amor e ternura... de dar ânimo e fazer despertar em cada um de nós a realidade, enriquecendo seu caráter... de ser um construtor de seres humanos... De manter sempre aquele brilho nos olhos quando percebe que está se fazendo entender pela classe... brilho esse que nos contagia e nos dá vontade de aprender... mais e mais... de chegar ao fim do ano com  os olhos umedecidos, já com uma pontada de saudades antecipadas, mas com a sensação de dever cumprido com aqueles alunos que se vão... e ao mesmo tempo, já estar pronta e atenta à próxima classe que virá... E de sentir orgulho de ser professora.
    Posso afirmar que passados mais de 40 anos desse episódio não há um ano que eu não me recorde do que ocorreu e lhe seja grato pelo seu gesto, de se importar com apenas um aluno. E esse seu gesto também me fez, pelo mesmo tentar, agir da mesma forma, acreditando em cada ser humano... e das maravilhas de que é capaz de realizar, lembrando uma famosa frase de Goethe: “só é possível ensinar uma criança amar, amando-a”.
    Eu sempre me pergunto se hoje ainda há professores que fazem por seus alunos o que a D. Lúcia fez por mim. Mas se a resposta for positiva, então esta pessoa pode se considerar um Professor... Professor com “P” Maiúsculo!!!
    Obrigado! Obrigado, de coração, Professora Lúcia Biondo!

     

    Lauro esteve dia 9/10/11 visitando D. Lúcia


    **********************************************************************************


    Homenagem às minhas professoras do primário

                                                                                                  Por Patrícia Golombek


    Percebo que do primeiro dia que entrei na escola primária aos seis anos e meio, minha vida teria mudado para sempre. Aquela professora firme e determinada parecia conhecer a cada um de nós como se tivesse passado os primeiros anos de nossas vidas conosco.

    Parecia adivinhar e antecipar cada passo que eu daria e eu não fui muito fácil não. Ela teve que me separar da minha melhor amiga colocando-nos uma em cada canto oposto da classe senão a sala viria abaixo! Mesmo assim um dia, quando ela deu uma breve saída e nos deixou copiando algum exercício na lousa teve a surpresa de na volta encontrar a sala numa balbúrdia louca e eu em cima da carteira a orquestrar a bagunça. Só ouvi D. Kiyome dando um belo grito: D. Patrícia desça desta mesa agora!
    Aquele primeiro ano foi intenso. Muitas atividades.Muita ansiedade, pois estávamos aprendendo a ler! Aprendíamos todas as histórias com a cartilha do patinho, com suas música, os carimbos que coloríamos e fazíamos diversos exercícios, as festas com os trabalhos referentes a cada uma, como o anelsinho feito de miçangas para nossas mães e colocados num bauzinho forrado por um papel estampado por nós, a ida aoposto de vacinação, as excursões ao Jardim Botânico e ao sítio de um colega, a missa na Igreja da Consolação em memória de uma coleguinha, as idas ao banheiro onde D. Kiyome conduzia as filas dos meninos e meninas. Eles iam primeiro, nós ficávamos em fila esperando do lado de fora e quando eles saiam , era a nossa vez ( por que eles nunca conseguiam segurar?!). Ela garantia assim que depois ninguém precisasse sair no meio da aula pra ir ao banheiro.
    Nossas visitas à biblioteca infantil, que à medida que íamos aprendendo a ler se intensificavam.

    Na segunda série, pegamos uma professora que acabava de se formar no Curso Normal e era uma pessoa muito especial: ela tinha tido paralisia infantil e tinha uma certa dificuldade em se locomover. Era D. Ethel Koiransky. Foi uma das pessoas mais doces e felizes que conheci. Ir para a aula era um prazer, todos ríamos muito quando ela começava a falar imitando caipira e nos ensinando de uma forma divertida e agradável. Não fazíamos bagunça, não confundíamos o fato dela ser ser legal com falta de respeito, ela sabia se impor. E eu, como a menor da classe, saia de mãos dadas com ela e carregava seus diários de classe até a sala do professores no segundo andar, tendo o privilégio de andar naquele elevador de portas pantográficas, me sentindo a rainha da cocada preta. Usamos canetas tinteiro naquele ano.
    D. Ehel faleceu há dez anos.
    No ano seguinte, terceira série, fomos para o segundo andar. Rezei pra não cair com uma professora que diziam ser muito enérgica: D. Maria Pedrina Pagliusi.
    Voltei pra casa naquele dia e minha mãe percebeu pela minha cara que meu maior temor tinha se concretizado.
    Foi, então, em 1973 que virei gente: eu morria de medo da professora, ficava quieta, prestava atenção nas aulas e fui muito bem naquele ano. Teria sido exagero?
    No ano seguinte caí de novo com a D. Kiyome. No segundo dia de aula ela veio falar comigo a sós:
    _Patrícia, aconteceu alguma coisa com você que você queira me contar? O que aconteceu?
    Bem, eu tinha mudado tanto, estava tão quieta na aula que ela achou que tinha acontecido algo muito grave na minha vida. Eu simplesmente respondi:
    _ Aconteceu D. Maria Pedrina!
     Devo dizer que se não tivesse sido ela, eu não sei o que teria sido de mim, ela me “botou nos eixos” e digo que adoraria encontrá-la novamente! D. Maria Pedrina, onde está a senhora?
    Aquela quarta série de 74 foi o máximo: gincana entre meninos e meninas, uma grande pesquisa sobre o folclore brasileiro, apresentação no teatro para o dia das mães, festa da pipoca, onde vencemos o concurso de miss caipirinha e ganhamos uma viagem para Campos do Jordão. Uma tragédia : epidemia de meningite! Só se falava nisso! Tivemos vacinação na escola com aquelas pistolas estranhas, teve colegas de outras classes que ficaram doentes e quase perderam o ano!
     Havia uma certa rivalidade entre nós da turma B e os alunos da D. Lúcia Biondo , da turma A que ficava logo ali na nossa frente. Eles faziam peças de teatro e a D. Lúcia, juntamente com as normalistas sempre estava a cantar com seus alunos. Ela sempre arrumava alguma coisa  “artística “para a sua turma.
    Havia ainda a sala de D. Odete Cação e D. Dulce, que há muitos anos estava na escola.
    Enfim, fizemos um primário maravilhoso  e cada professora nos deixou uma marca em nossas vidas para sempre. Passaram-nos valores numa época em que estávamos formando nosso caráter. E tivemos o privilégio de ter as mais incríveis profissionais comprometidas em passar esses valores, para nós, felizardos alunos de uma escola que nos marcou para sempre. Professoras, muito obrigada e à vocês nossa homenagem!

     1971- D. Kiyome com meu colega Marcelo Mússio na festa do livro

     

    1971- D. Maria Pedrina à esq. ela já dava aula para as terceiras séries

     



    Voltar