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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

  • Quarta-Feira, 29 de Junho de 2011
    Victoria, minha professora do Jardim da Infncia
  • “Será que você sabe, será que você viu, um pintinho amarelinho que faz piu,piu,piu,piu,piu.....
         Pintinho nasceu,as asas bateu,o biquinho abriu e fez piu.piu,piu.Do ovo saiu,alegre a pular,ouviu piu,piu piu e pos-se a cantar:piu,piu,piu,piu,.........”

       Quanta recordação! E pensar que eu era uma menina de apenas 19 anos, professora de uma classe com 80 crianças e todos me chamavam de “Dona Victoria”
     Isso mesmo, eram 80 crianças, com 2 professoras que diariamente trabalhavam essas crianças.
     A verdade é que as atividades eram divididas e então nós tínhamos que “dominar” a classe inteirinha.
      E isso eu só consegui através do aprendizado da Escola Normal Caetano de Campos que freqüentei entre os anos de 1966 a 1968 onde pude ver concretamente como era o dia a dia de uma sala de aula.
      Voltando a sala de aula.... havia uma dinâmica a seguir (também com uma sala tão numerosa....).Começava no pátio onde nós buscávamos as crianças que nos esperavam em fila e a professora de música ou outra substituta, com um tambor, dava os sinais que indicavam a hora da “fila”
    As crianças rapidamente se dirigiam às suas professoras com suas lancheiras e, já em fila, cantavam as músicas conhecidas:

    “ A janelinha fecha quando está chovendo..a janelinha abre se o sol está aparecendo!
    Prá cá,prá lá,prá cá prá lá prá cá”

    Muitas vezes repassávamos as músicas de ensaio (festa junina, dia das mães, natal etc..).
    Depois subíamos em fila para a sala onde a professora (no caso eu) distribuía a capinha. A capinha era vermelha de algodão, com um bordado, escolhido pela mãe de cada aluno, e o nome da criança, que ficava para o lado de fora da cadeirinha dela. Assim, mesmo antes de ser alfabetizada, ela começaria o reconhecimento de seu material através do desenho e das letras de seu nome. Dentro da capinha eram guardados os materiais individuais, como: tesoura, lápis grafite, estojo de lápis de cor, caneta hidrocolor. Estes eram de inteira responsabilidade do aluno, inclusive quando levava nos finais de semana para lavar a capinha e trazer de volta.
    Muitas vezes a criança ia para a escola, na segunda-feira, sem a capinha e, muito sem graça, não sabia o que dizer. Era, em parte, sua responsabilidade, pois contava com a ajuda dos pais neste processo e construção.
    A aula então tinha início sempre com uma história. As crianças sentavam-se no chão próximas da professora e ouviam uma história, sempre relacionada ao tema estudado animais,índios,páscoa,dia das mães etc..)
    A partir desta história eles deveriam trabalhar com material de artes. Então, recebiam material de uso comum (lixa, papel sulfite, papel espelho, papel camurça, papel celofane) dependendo da atividade, e guache, giz de cera, tinta, para elaborar seu trabalho.
    Nas folhas eram colocados os nomes das crianças pelas professoras e muitas vezes as próprias crianças escreviam a sua maneira.... era a descoberta da escrita na sua forma mais simples..Para mim, muito significativa!!!!!!
    Em seguida havia o trabalho de recorte, onde as crianças podiam usar as tesourinhas, sem ponta, e mostrar sua habilidade nas folhas a elas apresentadas. O trabalho consistia em recorte e colagem. Esperava-se que a criança percebesse o espaço físico para ocupar com o recorte exato. Era interessante ver o desenvolvimento da turma ao longo do ano.

    E no meio da tarde, a hora tão esperada por todos:

    “CHEGOU A HORA DE MERENDAR, CHEGOU A HORA DE MERENDAR VAMOS COMER BEM DEVAGAR,VAMOS COMER BEM DEVAGAR
    AGORA PRESTE MUITA ATENÇÃO, AGORA PRESTE MUITA ATENÇÃO PAPEL E CASCA NÃO SE PÕE NO CHÃO, PAPEL E CASCA NÃO SE PÕE NO CHÃO.”

    “MUITO OBRIGADA PAPAI DO CÉU, PELO LANCHINHO QUE EU VOU TOMAR
    DAI IGUAL A QUEM TEM FOME
    AMÉM”

    E assim iniciava a hora do lanche: guardanapos de pano abertos sobre as mesinhas e lanches sendo”devorados” por crianças felizes. Posso dizer que educadíssimas, pois sabiam respeitar e acatar as ordens.
    Nessa hora, IMAGINEM quanta mordomia...passava nas salas uma copeira a Vita com uma bandeja que tinha um bule de aço inox, xícaras e açucareiro de louça, colheres, para que nós nos servíssemos de cafezinho e...bolachas, à vontade, do tipo maisena, Maria, coisas assim.
    Depois de 10 anos, trabalhei em escolas particulares, onde se eu quisesse tomar café, teria que pegar na garrafa térmica, já adoçado, e beber num copinho de plástico (“SALVE ESCOLA QUE TANTO ADORAMOS”)

    Depois do lanche faziam um breve repouso, colocando a cabecinha na mesa e, é claro, conversando baixinho aguardando a “HORA DO PARQUE”
    No parque acontecia de tudo e, as professoras faziam rodízio para tomar conta das crianças, pois mereciam um repouso de 30 minutos. Mas lá era muito gostoso ver brincarem de roda, pegapega, amarelinha e outras tantas brincadeiras. É claro que a hora que soava a sineta todo mundo corria para a fila suado e sedento e então...hora de beber água.
    De volta à classe, eram feitas atividades de coordenação motora, pinturas nos vidros das janelas com o tema proposto pela professora titular de artes ou tínhamos aula na sala de música..
    Muitas vezes as crianças ouviam histórias do famoso Disquinho, narradas e com slides. Elas adoravam reproduzir em dupla através de desenhos em diferentes técnicas. Alguns trabalhinhos iam para o mural.Sem dúvida era uma forma de desenvolver habilidades....
    A aula de coordenação motora era bem diferente do que se vê hoje. As crianças tinham uma folha pautada e nós, as professoras, traçávamos a pauta na lousa e em seguida explicávamos o exercício a ser feito
    Sempre era associado a uma musiquinha para atrair a atenção da criançada.
    Por exemplo:

    Pauta na lousa:
    SSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS

    Música cantada:

    “O sapinho vai pulando, vai pulando de mansinho
    Vai pulando e vai caindo na lagoa do vizinho”

    As crianças faziam e repetiam em voz alta e assim aprendiam. Era muito gostoso, pois nós íamos passando de mesa em mesa, observando a lição e corrigindo quando necessário.
    Com tantas crianças em sala de aula, o dia passava rapidinho......
    Assim faltando 1/4 para a hora do sinal, iniciávamos a saída, que constava em ir ao banheiro - pois muitas crianças utilizavam perua escolar, e demoravam muito para chegar em casa (imaginem se fosse hoje) - , recolher a capinha, guardar todo o material da classe e formar a fila para a saída, que acontecia no mesmo pátio da entrada.
    Os pais já estavam a postos aguardando as crianças que, sorridentes, corriam a seu encontro.

    Foi bom encontrar a Patrícia e saber que fiz parte de seu mundo. Não só dela, mais de outros tantos alunos de uma escola de referência, para mim como aluna e como professora. Foram anos difíceis como aluna, pois vivi a ditadura. Mas foram anos de glória como professora, pois foi no Jardim de Infância da Caetano de Campos que aprendi o que é ser de fato uma professora de verdade.
    Tendo por base esta experiência, pude me dedicar com muito carinho na profissão de professora, pois sabendo lidar com tantas crianças ao mesmo tempo, nada seria impossível.
    Por Victoria Bayrão

     

    Victoria Bayrão à esquerda


    Em dezembro de 2010, encontrei Victoria no lançamento do livro da Wilma Legris, sobre o Caetano de Campos. Conversando, descobri que ela havia dado aula no Jardim da infância em 1970, ano em que eu estava no terceiro grau do Jardim. Ela me perguntou quem tinha sido minha professora. Por incrível que pareça , eu só me lembrava da professora Célia do segundo grau. Quando cheguei em casa e fui procurar meu diplominha do Jardim, qual não foi minha surpresa, ao descobrir que ela tinha sido minha professora, sua assinatura estava lá! O melhor de tudo é que o título do livro que lancei em Março "Baixinha de uma Figa , não! "foi tirado de um episódio que aconteceu na aula dela.Desde então, temos nos falado com certa frequência e ela tem me ajudado a lembrar o repertório musical que era utilizado em nossas aulas. Foi um encontro e tanto!
    Por Patrícia Golombek   
                           



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