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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Documentários e entrevistas gravadas

  • Quinta-Feira, 03 de Novembro de 2011
    Oswaldo Laurindo- o querido "Fafi"
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    No dia 2 de novembro de 2011, juntamente com o colega Chedi Abraão, fui ao encontro do Prof. Oswaldo Laurindo, carinhosamente conhecido por Fafi, o grande professor de Física do Instituto de Educação Caetano de Campos dos meados da década de 1950 até o final da década de 1970, quando a escola saiu da Praça da República. Eu e o Chedi tínhamos, além da missão de gravar a entrevista, entregar ao mestre a plaquinha de prata com o agradecimento por parte de seus alunos, que deveria ter sido entregue a ele no encontro do dia 20 de setembro ( encontro dos ex-alunos e professores por ocasião dos 120 anos de morte do Caetano de Campos). O professor não pode comparecer por motivos pessoais, então fomos ao encontro dele. O professor estava muito bem humorado. Além de entregarmos a plaquinha eu li o tributo que o Fernando Amaral havia escrito pra ele e que foi publicado no dia dos professores neste blog.
    Ele ficou emocionado, mas riu muito. Principalmente na hora em que ouviu a parte em que quando se contava piadas do seu time ele não gostava, recontava-as e depois ele mesmo ria da piada.
    Contou que os alunos sempre faziam desenhos do São Paulo Futebol Clube nos trabalhos e até nas provas, pra ver se tinham um creditozinho a mais. Eu tive que fazer vários cortes estranhos no filme porque ele me fez rir muito e estragava a gravação! Principalmente na hora em que eu perguntei a ele se ele percebia que os alunos normalmente sentem dificuldade em Física e ele respondeu: sinto muito minha filha, mas eu tinha problema era com a mulherada! Com os meninos isso não acontecia!
    O professor fará 95 anos em dezembro, disse que parou de dar aulas com 81 anos!
    Ele foi um dos primeiros alunos de Física da USP e eu tive que perguntar a ele o por que de ter escolhido tal carreira, ele me respondeu: "amor às ciências, minha filha "e naquele tempo tive que estudar Física sozinho, antes de entrar na faculdade, os professores eram fraquinhos, fraquinhos, quando eu entrei na USP, só tinha estrangeiros.Isso foi em meados da década de 1930.
    Infelizmente não tive a oportunidade de ter tido aulas com ele, pois no colegial fui para outra escola ( além do fato dele ter saído da escola), pelo que percebi ele fazia com que os alunos entendessem e gostassem da matéria, influenciando muitos alunos, taí o Fernando Amaral que não me deixa mentir.

     

       Chedi Abraão, ex-aluno com o professor Laurindo


     

     
    Tributo ao Professor Laurindo
    Fernando L.M. Amaral
     
    Oswaldo Laurindo foi nosso professor de Física no IECC no início dos anos 70, quando fazíamos o curso científico. Nos achávamos adultos com menos de 18 anos. E achávamos que  todos os adultos eram velhos. Hoje, com menos de 60 anos, ainda não nos sentimos velhos.
    Ele sempre usava um longo avental branco sobre um impecável terno azul escuro e clássica gravata. E se fazia acompanhar de sua pesada mala de couro, preta com alça de mão, e de um enorme guarda-chuva, por precaução.
    O professor Laurindo sempre foi um homem muito bem humorado, alegre, bem disposto, aberto ao diálogo, conversador mesmo. Nunca tivemos nenhum atrito sério com ele e nunca se meteu em nossas vidas além do que era necessário.
    Para muitos, no entanto, para ser perfeito ele precisaria deixar de professar sua adoração pelo São Paulo Futebol Clube, time do qual - sempre em tom de blague - dizia-se torcedor incondicional. Ele sempre brincava conosco sobre isso. E nós encarávamos essa brincadeira com muito bom humor também. Mas claro, se ele fosse corintiano tudo seria perfeito. Exceto para nossos diversos colegas palmeirenses, santistas e outros tantos são-paulinos, como ele.
    Ninguém se lembra de como ele fazia para manter a disciplina na sala de aula.
    E ninguém se lembra que a sala fosse bagunçada.
    É incrível imaginar, mas havia um respeito tácito à palavra dele. Enquanto ele explicava, ouvíamos tudo com atenção e muito boa vontade. Até que, de repente, no meio de uma explicação séria, por alguma inusitada associação de ideias, algo lembrava algum símbolo ligado ao futebol.
    Tensão no ar.
    Súbito alguém fazia uma piada e a classe explodia em gargalhadas. Ele a ouvia, se empolgava e gargalhava também. Então, se a mesma fizesse gozação com o São Paulo, ele corrigia a piada. Recontava-a e gargalhava novamente. E nos punha a rir de nossos próprios times...
    A zoação preferida era com o Corinthians, lógico, mas também sobrava gozação para todos os outros. E de repente, sem nos darmos conta, lá estávamos nós compenetrados novamente, divagando nas ideias da Física, ouvindo-o nos ensinar, fazendo-lhe perguntas e respondendo-lhe, seriamente, às suas arguições. Ou então, estávamos no Laboratório de Física assistindo a demonstrações que, praticamente, só se dispunha no IECC. Que privilégio! Quantos papéis o professor Laurindo desempenhou? Foi um sábio, pai, psicólogo, amigo? Foi conselheiro, um irmão mais velho, ator? Foi um modelo a ser seguido? Talvez tenha sido tudo isso. Talvez tenha sido muito mais. Em uma só palavra: um excelente professor.
    Desde sempre, carinhosamente, foi por nós chamado de Fafi.
    Recentemente, tivemos uma tremenda alegria ao redescobri-lo vivo. Ele está com quase 100 anos de idade e queremos que dure para sempre!
    Esperamos chegar à idade dele com a mesma alegria, saúde e disposição que apresenta hoje.
    Conferimos a ele, em vida, o título de professor inesquecível.
     

    Fernando Amaral é Bacharel em Física pelo Instituto de Física da USP



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