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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Documentários e entrevistas gravadas

  • Quinta-Feira, 10 de Novembro de 2011
    Noemi Silveira Rudolfer- Psicologia no Instituto de Educao
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    Depoimento de 1974- acervo TV Cultura


    Noemi Silveira Rudolfer, irmã de D. Iracema Marques da Silveira, a bibliotecária de nossa escola , que aparece logo no início do vídeo acima quando criança, foi uma das pioneiras em Psicologia aplicada à Educação e responsável pelo Laboratório de Psicologia, localizado no terceiro andar da escola.

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    Noemi Marques da Silveira Rudolfer nasceu no dia 8 de agosto de 1902 em Santa Rita do Viterbo, interior de São Paulo. Estudou na Escola Normal do Brás de 1914 a 1918.
     Formada, começou a lecionar como professora substituta e, em 1921, por concurso de provas e títulos, assumiu o cargo de professora primária adjunta no Grupo Escolar Prudente de Moraes, lá permanecendo até 1927. Entre 1927 e 1930 foi assistente de Lourenço Filho na área de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal da Praça, sendo a aplicação dos Testes ABC um dos trabalhos em que se envolveu diretamente.  Em 1928, Noemi Rudolfer integrou um grupo de educadores que viajou aos Estados Unidos com subsídios da Associação Brasileira de Educação (ABE) e do International Institute of Education de Nova York, objetivando conhecer e estudar a educação daquele país. Voltou novamente aos EUA em 1930 para aprofundar seus conhecimentos em psicologia no Teacher ́s College da Universidade de Colúmbia, Nova York. Nesse último período, freqüentou as aulas de Kilpatrick, Dewey, Thorndike, Gates e outros . Assim, começou a traduzir os livros dos mestres americanos para o Português, o que posteriormente facilitou no aprendizado e formação dos novos professores da área de Psicologia.
     Em 1931, assumiu a coordenação do Serviço de Psicologia Aplicada, ligado à Diretoria Geral de Ensino de São Paulo. Pediu demissão do Serviço motivada pela substituição de Lourenço Filho na Diretoria Geral de Ensino (1930/31) por Sud Mennucci,. Com a ida de Lourenço Filho para o Rio de Janeiro, em 1931, a Cadeira de Psicologia Educacional do Instituto de Educação Caetano de Campos ficou vaga, sendo ocupada por Noemi Rudolfer logo em seguida.
      A educadora retornou ao Serviço Aplicado de Psicologia somente em 1933, quando Fernando de Azevedo encarregou-se da Diretoria Geral de Ensino.
     Noemi era vinculada aos princípios da Escola Nova: o exercício desenvolvido deveria estar centrado no aluno que, estimulado pelo professor, procuraria resolver os problemas de forma autônoma. Assim, a criatividade e a simplicidade poderiam emergir, caso as crianças fossem afastadas das divagações e do uso de palavras desconhecidas .
     Outro aspecto analisado nessa comunicação diz respeito à Orientação Profissional - campo de intervenção de Noemi Rudolfer.
    Essa temática recebeu atenção de vários intelectuais ligados à elite do período, tais como Roberto Simonsen, Roberto Mange e o professor Lourenço Filho.
    A educadora reconhecia que a função da Orientação Profissional era guiar “os indivíduos para a profissão adaptada às suas aptidões”. Nesse sentido, a orientação devolveria o “amor pelo trabalho” que levaria a um rendimento intenso e uma economia maior. Com isso, evitava-se o “desperdício de forças preciosas” e a “instabilidade operária e os acidentes de trabalho para o profissional e para aqueles que são alcançados pela sua ação”. E, finalmente, seria dirigida a “juventude ao sair das escolas, conduzindo-a para a atividade em equação de suas tendências, - esta é sua obra fundamental”
    Para sustentar sua tese, Rudolfer baseou-se no resultado de uma pesquisa desenvolvida em grupos escolares em São Paulo, envolvendo 1350 crianças (696 meninas e 654 meninos) de 11 a 14 anos. As respostas dadas às perguntas - O que vai ser quando crescer? Por quê? - revigoraram a crença da educadora da necessidade de um serviço de Orientação Profissional.
    Com essa mesma preocupação de controle e ajuste do trabalho, foi fundado o Instituto de Organização Racional do Trabalho (IDORT) em julho de 1931, sob o patronato da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e do jornal O Estado de S. Paulo .
    Participavam do IDORT empresários e educadores, entre eles Noemi Rudolfer, presente na comissão de redação da seção de “Orientação Profissional” . Segundo Lourenço Filho, o Instituto nasceu com o “desejo de servir ao progresso do trabalho em nossa terra”.

     

    1927- da esq para dir. em pé : 2*Gastão Strang, 4* -Carlos Silveira, 5* Benjamin Ribeiro, 6* Manuel Bergstrom Lourenço Filho, 7* Américo Moura. Sentados:1 - Noemi Marques da Silveira ( Rudolfer), Branca do Canto e Mello, 3- Robero Mange, 4- Senhora Pierón, 5-Henri Pierón, 7-Carlos Alberto Cardim Filho, 8-João Baptista de Brito




    Em 1933, Fernando Azevedo promove a Escola Normal da Praça a nível superior, transformando-o no Instituto de Educação da Universidade de São Paulo. Em 1934, quando a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras é criada, Noemi Rudolfer dava aulas tanto no Instituto, como na FFCL( Faculdade de Filosofia Ciências e Letras) mais tarde em 1938 quando o Instituto volta a ter o status inicial de Escola Normal, Noemi fica na FFCL, que já naquela época ocupava o terceiro andar do prédio da Escola Caetano de Campos.
       Acerca desse histórico, Lourenço Filho discorreu sobre a vinda de Henri Pierón e Leon Walther, que ministraram curso sobre tecnopsicologia do trabalho industrial. O fato deu corpo e direção à idéia de instituir uma sociedade de psicotécnica, posteriormente um centro de estudos de organização científica, concretizado no IDORT.
     Noemi apresentou à V Conferência Nacional de Educação da ABE em 1932 a comunicação Da homogeneização das classes escolares. Esse texto, publicado na revista do IDORT em abril de 1933, colocava em questão as “diferenças individuais” e o porquê do fracasso escolar.

     

    A temática desenvolvida por Rudolfer defendia a centralidade do processo educacional na criança, ao procurar saber como ela é, como aprende, suas aspirações, hábitos e deficiências para, por meio dessas informações, inquirir qual método, técnica e processo pode o professor empregar . A partir disso, iniciar o controle que continuaria na vida adulta na condição de trabalhador.
     Ao perseguir seus objetivos, abraçava os testes como meio de predizer e classificar os alunos em grupos mais ou menos homogêneos.

     

    Na formação dos professores, Rudolfer não duvidava que a inclusão das disciplinas de Psicologia (Educacional, da Criança, da Adolescência) e de Medidas e Estatísticas Aplicadas à Educação no currículo das Escolas Normais cumpriria importante e fundamental papel.

    Para a formação dos psicólogos escolares, além de cursos de especialização, sugeria a criação de um curso superior. No currículo, recomendava as disciplinas: Psicologia (Educacional, da Criança, da Adolescência, do Anormal, Social, das matérias elementares e secundárias), Estatísticas Aplicadas à Educação, Ajustamentos Mentais, Construção de Programa, Diagnose e Medidas Curativas na Escola Primária e Secundária, tudo isso depois entrou no laboratório de Psicologia que dirigiu em companhia de Annita Cabral. 
    Em sua trajetória, Noemi procurou mover-se no sentido de, decididamente, estreitar a contribuição da Psicologia no aperfeiçoamento da sociedade brasileira. As ações empreendidas visaram construir uma modernidade que se pode adjetivar como conservadora. Nesse intuito, sua atuação na Psicologia Educacional e na Orientação Profissional configurou-se em um campo que se tornou central nas discussões daquele momento histórico. A educadora auxiliou a concretizar as bases do apoio científico para o processo de dominação, com trabalhos no campo da Psicologia Educacional e da Orientação Profissional.
    Para Rudolfer, o psicólogo, amparado pelo conhecimento científico - fornecido pelos testes - desempenharia na sociedade a função técnica de classificar os indivíduos e determinar, desde a escola, a qual grupo cada um deveria pertencer até ingressar no mundo do trabalho. Esse aporte teórico materializou-se nas práticas e pesquisas baseadas em testes no Serviço de Psicologia Educacional e, posteriormente, no Laboratório de Psicologia Educacional junto ao Instituto de Educação da USP( que era a antiga escola Normal levada ao nível superior no Caetano de Campos)Tais procedimentos coordenados por Noemi Rudolfer auxiliaram o IDORT na criação de mecanismos de seleção e identificação dos indivíduos não “aptos” para a sociedade pensada pela elite. Ou seja, as oportunidades existiam, seriam iguais para todos, mas as aptidões eram diferenciadas, por isso a necessidade de adequações e adaptações dos indivíduos no mundo do labor e, por conseqüência, na sociedade.


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    Outras atividades de Noemi Rudolfer:



    Comandante do Batalhão Feminino Universitário durante a II Guerra Mundial na defesa passiva da cidade de São Paulo (1945-1946).
    Psicanalista-Membro Efetivo da Associação Internacional de Psicanálise. 1953.
    Uma das fundadoras  da APAE - Jundiaí em 7 de setembro de 1957.
    Psicanalista Didata da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro. 1962.
    A partir de 1935, quando por concurso, foi designada pra assumir e inaugurar a Cátedra de Psicologia Educacional da Universidade de São Paulo, iniciou Noemy importante fase de sua vida, formando discípulos e renovando continuamente a psico-pedagogia. Desde então, avançou para o estudo dos mecanismos da mente humana e aprofundou-se na área psicanalítica. Para correlacionar objetivamente todos os aspectos da fisiologia psíquica, integrados às bases estruturais do cérebro, aproximou-se do grande anatomista italiano Alfonso Bovero, então Professor a Faculdade de Medicina de São Paulo, de quem recebeu ensinamentos básicos de Neuroanatomia.Nesse particular Noemy não permitia que seus alunos e discípulos desconhecessem a integração da Neurofisiologia às bases funcionais dos mecanismos do consciente e do subconsciente.Até bem próximo de seu falecimento, aos 78 anos, com vivacidade e lucidez,Noemy admirava e exaltava os recentes avanços no conhecimento das interconexões do paleoarquiencéfalo e neocortex e das especializações funcionais diferenciadas dos hemisférios cerebrais. Por isso mesmo, valorizava a contribuição de Freud, mostrando que a Psicanálise surgiu alicerçada na profunda visão científica que o Mestre de Viena obtivera de seus estudos básicos de Anatomia comparada, Fisiologia Pediatria e Psiquiatria. Da mesma forma, punha em foco a genialidade de Freud ao abrir e colocar a Psicanálise como um marco inicial, que deveria evoluir e e formular-se seguindo o marcapasso dos avanços científicos.
     

    D. Noemi faleceu no dia 16 de dezembro de 1980.

     

    Algumas obras publicadas de Noemi Rudolfer:
     

    RUDOLFER, Noemy da Silveira. A teoria talâmica das emoções de dana e a teoria psicanalítica das emoções de Freud. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE, 6., 1977, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro, 1977.
    RUDOLFER, Noemy da Silveira. Critérios em uso na moderna psicologia. Boletim de Psicologia, v. 6/7 VII (21,22,23,24) 45-53.set/dez. 55; mar.56
    RUDOLFER, Noemy da Silveira. Introdução à psicologia educacional. São Paulo: Ed. Nacional, 1960.
    RUDOLFER, Noemy da Silveira. Os motivos profundos no desenho infantil. Boletim de Psicologia. AnoVII e VIII.(25,26,27).17-30. set/dez. 55; mar.56
    RUDOLFER, Noemy da Silveira. Psicologia profunda das manifestações artísticas. Boletim de Psicologia, v. 10, n. 35/36, p. 84-94. jan./dez. 1958.
     
    Década de 1950- Noemi segurando o braço de uma colega, à esquerda da foto D. Iracema, em seguida Prof. João Cardim e D. Corintha Aciolly, diretores




    Fonte: 
    José Damiro Moraes: Noemi Rudolfer e a organização da escola e do mundo do trabalho nos anos 1920/1930- tese


     



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