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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Documentários e entrevistas gravadas

  • Sábado, 12 de Novembro de 2011
    Rosa Maria Tavares Andrade
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    A bióloga e apresentadora da TV Educativa entre outras coisas Rosa Maria é uma daquelas pessoas que te faz sentir feliz só de estar ao lado dela. Estudou a vida inteira no Instituto de Educação Caetano de Campos até ingressar na Faculdade de Biologia da USP.Em 1994, foi convidada a escrever um texto para o livro "Caetano de Campos"Fragmentos da História da Instrução Pública em São Paulo, por ocasião dos 100 anos do prédio da Praça da República, organizado por Maria Candida Delgado Reis e com grande participação de Eliana Cáceres. Entrevista realizada no dia 8/11/2011.
    A seguir, o texto que Rosa Maria publicou neste livro:



    E… “É como se o livro dos tempos
    pudesse ser lido trás pra frente
    prá trás…

                              Gilberto Gil

    Era possível distinguir nas sombras refletidas nos degraus da escadaria principal do Instituto de educação Caetano de Campos fios do cabelo crespo, cujas tranças bem feitas tentavam esticar. Também era possível distinguir as pernas finas de quatro anos de idade, embaixo do uniforme infantil armado, que pulavam de dois os treze degraus da Escola- que Escola! Bem mais tarde, já com catorze anos, na 7* série do Ginásio, sugestionada pela leitura do livro “O Homem que Calculava”, contei através de somas mirabolantes, em tempo recorde, todas as janelas externas- 225! Mas no começo, quando nos era dado o privilégio de entrar pela escadaria principal, eu achava divertido apenas olhar as sombras fragmentadas que se alteravam- ora nas paredes cor de creme, ora no chão de mármore, do hall principal. Por estas sombras, o cabelo de minha mãe- que me buscava todos os dias, impreterivelmente ao meio-dia- aparecia assumidamente afro ( eu diria agora, mas não era nada tradicional para aqueles anos 60.  Aliás naquela época eu sinceramente não gostava). Que agradável  quando minha madrinha Célia- a quem devo a oportunidade de ter estudado no Caetano de Campos- me levava à Escola. Afinal, ela se parecia com as professoras- pele clara, óculos com brilhantinhos na armação e colar de pérolas. Acho que todas as professoras tinham um colar de pérolas, verdadeiro ou não. É possível que verdadeiros; as professoras recebiam um bom salário e pertenciam a famílias denominadas quatrocentonas. Será? No primário, minhas classes eram no andar térreo. Fácil de lembrar: todas as janelas tinham grades de ferro trabalhado ( às vezes, distraida da aula, tentava desenhá-las sem sucesso). Foi aí que percebi: meninas altas ficavam no fim da fila, sentavam atrás e eram travestidas de caipiras-meninos nas festas juninas. Pelo menos comigo foi assim. 
    Como  “doce” vingança , levei por anos, nas festas cívicas, a bandeira do Brasil, marchando à frente até do diretor da Escola. Nos quinze anos que passei no IECC, amizades surgiram.
    A cada ano, uma nova amiga- que se tornava inseparável. Foi assim com Maria Elvira. Filha de portugueses, ela se parecia muito com as meninas que ilustravam as figuras dos livros- loira, olhos verdes, cabelos lisos- tão diferente de mim! Nessa época recebi um apelido: Rosa Maria da Cara Marrom. Confesso, achei de mal gosto, horrível e entristeci. Outras denominações que pareciam inofensivas, mas que não deixavamde ter características absurdas, vieram depois: Café com leite, Cor de Piche, Escurinha, Mulatinha.
    Os anos seguiam. Veio Rosana- descendente de italianos, sempre comigo. Nos grupos de trabalhos escolares, nos juntavamos às orientais, que nos anos 70, vindas do Japão, Coréia e China, modificaram o perfil étnico da classe. Para mim foi um alívio não ser mais o único tipo físico  “diferente “.Pausa e luto pela morte da japonesa Nilza Morioka, em consequência a cruel bomba de Hiroshima, que explodiu quando Nilza nem havia nascido (seus avós sofreram a radiação que passou para os descendentes que tiveram então câncer). Aluna exemplar, vida interrompida pela estupidez alheia e distante. Um fato para não esquecer. Como homenagem, sua carteira, bem à frente da minha, ficou desocupada até o término daquele ano letivo.

    Vida social agitada nos meus dezesseis anos. Os convites para as festas pipocavam pela Escola. Para dançar, o som do garoto negro Michael Jackson, que despontava nas paradas de sucesso. Mas nem tudo eram flores. Em uma sexta-feira inesquecível do Colegial, eu aguardava ansiosa o convite para o aniversário da Beatriz, que quase todas haviam recebido, quando na aula de Ingles, Jussara me passou um bilhetinho em letras de forma: “Eu e você não vamos ser convidadas porque somos de cor, os pais da Beatriz não gostam de pretos “. Impossível! Não me contive, o choro da humilhação desfez quase por completo o bilhete já amassado e rasgado com raiva. Espanto de todos. Fui retirada da aula aos prantos, mas não respondi a nenhuma pergunta que fizeram. O desencanto começava a O desencanto começava a despertar em mim uma outra consciência.
    Ah! As feiras de Ciências! Na semana Caetano de Campos, ocupavam todo o 2* andar. Durante a Semana, poderíamos usar o elevador- exclusividade dos professores-, que era terminantmente proibido aos alunos em qualquer outro momento do ano. E podíamos também encontar os meninos do período matutino, pois à tarde a nossa classe era exclusivamente feminina. Bom trabalho na Feira de Ciências, boa nota na caderneta. Uma chance contra a professora Gertrudes, de Ciências, que nos deixava enlouquecidas com tanta matéria. Aulas práticas no laboratório de Biologia- amplo, repleto de armários de madeira escura, antigos, solenes, abarrotados de equipamentos em desuso. Ela repetia constantemente, com voz rouca e pausada: “Esta Escola é pública, mas tem o mesmo nível do Colégio Rio Branco”. Nós agradecíamos, silenciosamente , a comparação. Apostávamos muito, entre nós, com relação aos professores: “Qual sera a cor do sapato e o estilo de roupa da ( chiquérrima) professora de Geografia, Dona Maria Luiza?” Culta, viajada, conhecia todos os lugares de que falávamos na aula. Ela havia visitado, inclusive, alguns países africanos! Descrevia os  povos africanos como soberanos, nada primitivos ou submissos, com uma variedade cultural comparável à dos europeus.Comecei em suas aulas a valorizar e compreender a  “Mama” África ,a ponto de pedir à minha mãe para conhecer o Congo- o Zaire independente de hoje. Minhas primeiras e ingênuas reflexões sobre o tema.
    Mas, um dia, entrou D. Antônia. A nova professora de Literatura, era negra como eu.
     Legal! Legal! D. Antônia me apresentou Machado de Assis, e eu me apaixonei por ele- fase romântica X fase realista, muitas pesquisas na bem equipada biblioteca da Escola sobre esse escritor “mulato” do começo do século…No mergulho no tempo me vem aos ouvidos as gargalhadas abafadas com as partituras, nas aulas de canto orfeônico, onde D. Bolinha, fingindo-se severa, tentava ensinar-nos a solfejar corretamente. Obrigada, simpática professora!
    Já não poderia dizer o mesmo de Educação Moral e Cívica, nos anos 70: silêncio completo dentro da classe, propaganda do “milagre “brasileiro ( Pra frente Brasil)…Festivais de música estudantis? Fui jurada em um deles.Coral? Conheci os “Sonhos do Amor “de Lizt. Peças de teatro?Interpretei gepeto, na peça “Pinóquio”, mesmo com a professora insistindo para que eu subisse ao palco com muito pó branco no rosto, para que eu ficasse parecida com o velhinho Rosado e bondoso.“Black is beautiful “e “ Black power” eram  as palavras de ordem da moçada engajada, quando troquei o barulho dos pássaros e motores da agitada Praça da República pela Universidade. Não houve tempo para festas de formatura, nem estavam mais em moda : o vestibular era a preocupação maior.Abandonei o uniforme cinza que tentava igualar-nos e segui para os lados da USP.Em 1988, Centenário da Abolição, voltei ao prédio- Casa Caetano de Campos- , já transformado em Secretaria da Educação, para trabalhar onde deixara boa parte da minha vida.Subindo os treze degraus da escadaria principal, por segundos tive a ilusão de ver minha imagem refletida nas 225 janelas- uma mulher conscientemente Afro-brasileira, sem as falsas ilusões da chamada democracia racial que a escola tentara ensinar.O que faltou nas lousas e salas dessa Escola? Hoje, sem dúvida posso afirmar que foram as imagens positivas de crianças negras nos livros escolares, Zumbi- a resistência negra diante da escravidão-, Chica da Silva, André Rebouças, Luiz Gama, Luiza Mahin e tantos outros negros que deixaram seu nome na memoria, mas que só recentemente vêm sendo recuperados pela História. Ou seja, o giz não completou as pontas di triângulo equilátero da igualdade, do respeito às diferenças e da valorização plurirracial. Subi os últimos degraus da escadaria. Muita emoção nessa viagem da memória por esses corredores. Uma reverência ao passado e um axé ao futuro.

     

    De caipirinha no Jardim de Infância

     

    De coelhinho com orelhas de papel crepon- no Jardim de Infância da década de 1960 era comum na comemoração da Páscoa

     

    No Primário vestida para a Primeira Comunhão, na Escola centenas de crianças participaram em conjunto desta celebração na Igreja da Consolação

     

    Até hoje Rosa Maria guarda enfeite do bolo de sua primeira comunhão

     

    Com o amigo Eduardo Silva, como mestres de cerimônia no Baile do Reencontro

     

    Na África do Sul, conversando com Desmond Tutu



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