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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Documentários e entrevistas gravadas

  • Quinta-Feira, 26 de Janeiro de 2012
    Os Mutantes e o Caetano de Campos
  • Texto tirado da Revista Realidade da década de 1960:

    Sérgio foi o primeiro a acreditar que podia obter êxito e ganhar dinheiro com música. Aos catorze anos, muito antes de ser um dos Mutantes, estava na primeira série do Instituto de Educação Caetano de Campos e vivia matando aulas para ir ao cinema. Um dia, disse à mãe, em tom solene:
    - Sou um profissional da guitarra. Vou viver disto e parar de estudar bobagens na escola.
    Dona Clarice Leite não concordou com a idéia do filho. Como castigo, passou um ano sem dar nada a ele – nem roupas, nem sapatos, nem presentes. Sérgio agüentou firme em sua decisão. Quando já era um Mutante, a mãe reconheceu nele um rapaz de opinião.
    Uma espécie de atavismo empurrava Arnaldo e Sérgio para a música.
     O pai, Sérgio Dias Baptista, que estudou também no Caetano de Campos foi secretário particular do ex-Governador Ademar de Barros durante muitos anos, mas antes pertenceu ao Coral Paulista, do qual era tenor principal. Foi ainda dançarino do Balé Português e poeta nas horas vagas: é o autor da versão brasileira da música de Natal ‘Noite Feliz’, assinada com pseudônimo. Dona Clarice é pianista, concertista e compositora de música erudita, mas sem êxito. O irmão mais velho de Arnaldo, Cláudio César, de 23 anos, já casado, fabrica instrumentos musicais elétricos e amplificadores de som.

     

    Turma do Sérgio no primário: ele é o quarto da direita para a esquerda, na fileira do meio




    Arnaldo, que agora tem vinte anos, era muito garoto quando a mãe resolveu fazê-lo pianista. Ele estudava contrafeito, por obrigação, e Dona Clarice terminou por desistir de vê-lo algum dia no Municipal, mas mesmo assim as lições continuaram.
    Arnaldo era mau aluno de piano, porém ótimo estudante do Instituto Caetano de Campos, onde fez o curso primário e o ginasial, sempre como primeiro aluno. Gostava de línguas, pensava estudar direito ou filosofia. Chegou a fazer o primeiro ano clássico no Mackenzie, mas parou o curso no ano passado, quando já era um Mutante e ganhava dinheiro com música.
    Na casa sem luxo de dois pavimentos onde nasceram e moram até hoje, na Vila Pompéia, perto do campo do Palmeiras, em São Paulo, Arnaldo e Sérgio recebiam um amigo, Rafael Vilardi, que os influenciava muito nos brinquedos. Primeiro foi a mania da astronáutica, montando e desmontando telescópios, para estudar as estrelas no Planetário do Ibirapuera. Depois, a do aeromodelismo. Construíam aviõezinhos e os destruíam em combates aéreos. Um dia, há oito anos, Rafael apareceu com um violão. Surgiu a mania dos conjuntos musicais.
    Foi há cinco anos que Arnaldo e Sérgio conheceram Rita Lee Jones, filha de pai americano e mãe italiana e que ainda mora na casa em que nasceu, na Vila Mariana, São Paulo. O pai, o dentista Charles Fenley Jones, nada tem de Lee no sobrenome: fez questão de colocar esse nome nas três filhas – Virgínia, Mary e Rita – em homenagem ao General Lee, comandante das tropas sulistas durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos.Rita era boa aluna do Liceu Pasteur, onde terminou o curso científico, e chegou a freqüentar um cursinho para a Escola de Comunicações, mas parou no ano passado, quando Os Mutantes se firmaram. Sempre gostou de música: na época da formatura, pediu ao pai que, em lugar de gastar dinheiro na festa, lhe desse uma bateria de presente. Charles Fenley Jones deu-lhe uma de NCr$ 60, muito ruim.
    Em 1962, com catorze anos, Rita formou com três meninas do Liceu Pasteur um conjunto vocal, o Teen Ager Sisters (sic; na verdade, Teenage Singers), que só cantava música folclórica americana. Eram todas muito louras como Rita, e por isso os amigos apelidaram o conjunto de "rataria branquela". Duas delas, uma inglesa e outra suíça, voltaram aos seus países um ano depois. Rita ficou sem o conjunto: restara apenas sua colega paulista Sueli, hoje também cantora.
    Num show de colégios no Teatro João Caetano, São Paulo, Rita conheceu Arnaldo, Rafael e Sérgio – que aprendera a tocar guitarra olhando os outros – tinham formado um trio de twist, os Flashs, meses depois da extinção dos Wooden Faces. Era um conjunto provisório, que eles pretendiam ampliar. Arnaldo fez um convite as duas meninas:- Por que vocês não vem cantar com a gente?
     Rita e Sueli aceitaram, nasceu então o O’Seis, formado pelos cinco e mais um baterista, Pastura. O nome O’Seis, além de designar o número de integrantes, tinha a intenção de fazer um trocadilho de ocês, forma acaipirada de vocês. Durou 2 anos.
    Depois saíram Suely, que foi morar no exterior, Rafael e Pastura, ficando somente Rita, Arnaldo e Sérgio.
    O conjunto ia bem, preocupava-se em ensaiar bastante.  Mas faltava um nome definitivo. Com Ronnie Von e o empresário, os três passaram a pensar em vários – Os Bruxos foi um deles. Arnaldo, Rita e Sérgio queriam um que não fosse estrangeiro, costume já tão batido, nem um nome brasileiro de mau gosto. No meio de mil, surgiu aquele que ficaria: Os Mutantes..


    * Dirceu Soares era repórter da revista Realidade, nos anos 60, onde a matéria foi publicada originalmente.


    Entrevista dada por Rita Lee para uma revista americana, contando como o conjunto era chamado originalmente de "Os Caras de Pau"na época em que Arnaldo e Sérgio estudavam no Caetano":


    Rita Lee interview
    5. How did you meet the other members of Os Mutantes?
    They attended a traditional school in São Paulo, Caetano de Campos. At the beginning the Wooden Faces were Claudio Cesar, the drummer (the eldest Baptista brother, the genius behind the instrument factory), Arnaldo the bass player and Rafael the guitar player. There was also behind the scenes the youngest brother Sérgio, who at that time was 13 and had quit school very early to dedicate fully to his guitar. (his parents went nuts!) The Teenage Singers met the Wooden Faces at the festival, I’ve already mentioned, but it took a while (the other previous line-ups) until the trio was completed. The name Mutantes was taken from a science fiction book called O Planeta dos Mutantes. The year was 1965.




    A seguir uma história descoberta pelo Fernando Amaral:

     O Antonio Amaral, meu irmão mais velho (nascido em 1950), estudou com o Arnaldo, na mesma classe, nos 3o e 4o anos do ginasial.
    A lembrança que ele tem do Arnaldo é de um cara bastante simpático, amistoso, gozador e aprontão.
    Ele lembra que o Arnaldo frequentemente era visto pelos corredores carregando o violão. 
    Disse que, por vezes, o Arnaldo sentava-se na mureta do páteo do recreio e ficava tirando musicas, ou mesmo tocando e cantando, cercado por um grupo de colegas.

    Um lance que deu um baita dum bixuxo na Caetano envolve um assunto tabú e novidade na época:
    Bichas (ou bixas) estavam começando a ser notadas, circulando na região da escola.
    Havia uma certa perplexidade, medo e a reprovação da moral pudica.
    Mas havia um lado engraçado, pois elas eram cheias de trejeitos e afetações que chamavam a atenção de todos.
    Pois não é que, ou por pura gozação ou para ganhar alguma aposta, conta-se que o Arnaldo e um amigo, sob os olhares incrédulos de outros colegas foram até a Av. São Luiz e "desfilaram" por toda a avenida fingindo-se de bichas, conversando alto, simulando trejeitos, expressões e atitudes afetadas? (não sei se estvam com o uniforme da escola).
    Meu irmão não viu nem lembra do ano em que isso aconteceu.
    Se era uma aposta, com certeza o Arnaldo e o amigo ganharam a aposta e a admiração de todos pela inusitada coragem.

     



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