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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

História da escola   Arquitetura

  • Quinta-Feira, 28 de Abril de 2011
    O prdio do Caetano de Campos
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    O edifício que abrigou a antiga Escola Normal e o Instituto Caetano de Campos é um dos mais importantes documentos culturais do estado de São Paulo. Exemplo de arquitetura oficial, durante muitos anos um paradigma para outras instituições de ensino.
    Este primeiro prédio escolar do período republicano (lembrando que a República havia sido “Proclamada”em 1889) foi construído por iniciativa do governo estadual e inaugurada em 1894, com aspecto palaciano e monumental, buscava refletir a postura e a importância que o novo governo dispensava à Educação e à formação dos cidadãos.
     O projeto original do edifício é de autoria do arquiteto e então diretor da Escola Politécnica, Antonio Francisco de Paula Souza. Mais tarde, este projeto foi detalhado e construído pelo conhecido, e enaltecido por muitos, o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo.
      Ramos de Azevedo ( 1851-1928) era professor da Escola Politécnica e do Liceu de Artes e Ofícios, e o seu escritório Técnico foi responsável pelas intervensões monumentais ocorridas nas primeiras décadas do final do séc 19 e início do séc 20, tais como : Escola Politécnica, Palácio das Indústrias, Teatro Municipal e a Pinacoteca do Estado, entre outras.
     O projeto original tinha o desenho em forma de “U” e depois de uma reforma em 1895 ,onde as classes atenderiam a Escola-Modelo Complemetar para alunos entre 11 e 14 anos, adquiriu a planta em formato da letra “E”. Tinha 86 mts de frente por 37 mts de profundidade .O prédio passou por quatro marcantes ampliações , uma em 1896 , com o acréscimo de salas nas pontas do "U", outra em 1934 com o acréscimo do terceiro andar, terminada de 1936 , outra em 1948 : a criação de alas perpendiculares à construção principal e o prolongamento destas em 2 corpos salientes que foram ampliados  para abrigar mais 12 salas de aula ( seria nas pontas da letra “U”, onde nos anos posteriores havia o Jardim de Infância de um lado  o Museu e Biblioteca do outro) e finalmente a última em 1978, com a entrada da Secretaria da Educação 2 estacionamentos no subsolo foram acrescentados, os banheiros foram divididos e floreiras foram colocadas nos páteos.
    Em 1896, dois anos após a inauguração deste prédio principal, foi construído um anexo independente , no que seria o prolongamento da Av. São Luis, que era o prédio do Jardim da Infância ( demolido no final dos anos 30, para dar lugar à avenida).Compunha-se de quatro salas de aula, um grande salão octagonal para reuniões gerais e solenidades infantis, onde do lado externo podemos observar em fotos da época uma grande cúpula metálica, acima deste salão de 15X15mts. Havia mais duas salas anexas ao corpo do edifício , uma para depósito de material e outra para reunião de professoras numa area total de 940 metros quadrados.
    Voltando para a planta do prédio principal , ela foi projetada pensando-se na iluminação, ventilação que se daria através das grandes janelas distribuídas ao longo dos corredores que dariam para um grande pátio interno. Haveria uma ala feminina e outra masculina, no centro do “U”, na parte interna havia um grande salão, de forma arredondada, chamada de Orpheão, demolida para dar lugar  ao auditório, inaugurado em 1941 e que permanence intacto até os dias de hoje.
     O terceiro andar  foi acrescentado, pois a escola necessitava de mais espaço nesse andar, entre 1935 à 1949,  pois a Escola Normal transformara-se em  Instituto de Educação ligado à USP pela sua “Escola de Professores”,  e em seguida foi criada a Seção de Educação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, antigos professores da Escola Normal, assim como professores estrangeiros contratados deram origem a este curso no prédio do Caetano de Campos.
     As salas de aula, destinada à permanência de 35 alunos ( mas comportavam mais de 40), tinham a altura de aproximadamente 5 metros, a garantia de um agradável conforto térmico e acústico. O edifício, de acordo com a técnica construtiva usual da época foi erguido com paredes autoportantes de alvenaria de tijolos revestidas de argamassa, com pavimentos assoalhados repousando sobre estrutura autônoma de madeira, forros de estuque de gesso e cobertura feita de com telhas de cerâmica.
     Para a composição da fachada, os projetistas recorreram ao vocabulário de origem clássica, manipulando com a liberdade característica do ecletismo arquitetônico do período.
    De acordo com os diversos níveis da construção, a fachada apresenta tratamento decorativo diferenciado.
     No pavimento que conhecemos como “porão”, de acabamento simples vemos pequenas janelas retangulares, onde ali funcionavam as oficinas escolares.
    No primeiro e segundo andares a fachada possui  janelas em arco pleno, ressaltadas de frisos e sobrevergas acimalhadas, que acompanham a sequência arqueada, completadas por losângulos em alto relevo sob os peitoris (no primeiro e terceiro andares e círculos no segundo).
     O terceiro andar diferencia-se dos demais por apresentar janelas mais largas e vergas retas. Sobre as cismalhas deste pavimento correm platibandas pontudas por pilares modulados.
    No lado externo da fachada encontramos também diversas estátuas  e algumas colunas em destaque.
     Nos anos 70,o  prédio contava com 60 amplas salas de aula, 3 salas de música,4 salas de professores, 3 secretarias, 2 gabinetes dentários, 1 gabinete médico,2 pátios abertos, 2 cobertos, 1 auditório, 1 sala nobre conhecida como sala  Álvaro Guião, conservada até hoje, porém retiraram todas as poltronas de madeira da época e subsituíram por poltronas de tecido(!), 2 bibliotecas, 4 salas de orientação, além de no porão funcionar a cantina, centro de documentação e depósitos.
     No projeto de implantação Leste-Oeste do Metrô, estava prevista a demolição do edifício, tendo como justificativa o alto custo financeiro da obra com a preservação. Ante a iminência de destruição do prédio, em 1975 parte da população, alunos e ex-alunos se organizou e a impediu.
     Porém em 1977 todos os alunos foram comunicados que a escola perderia o local que, por 83 anos foi a sede de uma das maiores e importantes instituições do Brasil, pois o então Secretário da Educação da época decidiu que ali seria o local ideal para a instalação da Secretaria da Educação.Então, no ano de 1978, 4772 alunos ( contando os 3 períodos de aula) foram transferidos para outros 2 prédios, um na antiga Escola Alemã na Praça Roosevelt e outra parte para uma escola recém construída na Rua Pires da mota, na Aclimação.
     Quando atualmente adentramos o prédio da Secretaria da Educação, percebemos que nada do mobiliário na época da escola sobrou. Os banheiros que ficavam nas extremidades foram adaptados , sendo divididos em dois, masculino e feminino, apesar do prédio ser tombado pelo Patrimônio Histórico, algumas obras foram feitas, algumas na época de transição em 78, com a construção de floreiras nos páteos, 2 estacionamentos, a remoção da cantina que virou passagem entre estes estacionamentos, a inclusão de diversas divisórias de eucatex nas antigas salas de aula, o revestimento de pisos de ladrilho hidráulico por pisos de borracha e até pisos cerâmicos de gosto duvidoso, como nos porões que tiveram suas paredes originais descascadas em parte para deixarem aparentes os tijolos.  Nem o elevador de porta pantográfica escapou: foi substituido por outro mais “moderno”.Na subida da escada principal para o segundo e terceiro andares percebemos que parte do piso de mármore branco foram substituidos por mármore travertino(!).Mas nem tudo está perdido: com a entrada do novo Secretário da Educação, percebemos que algumas atitudes estão sendo tomadas, como uma pesquisa feita por especialistas para a descoberta das cores originais do prédio,para uma futura pintura, além de novas reformas de manutenção programadas, quem sabe ele poderia presentear a cidade reservando alguma sala destinada à documentos, fotos e mobiliário daquela que foi a mais importante escola do País?
     
     
    Fontes:
    Correa, Maria Elizabeth Peirão et al. Arquitetura Escolar Paulista:1890-1920-São Pauo; FDE 1991
    Delgado Reis, Maria Cândida:”Caetano de Campos”: Fragmentos da História da Instrução Pública em São Paulo- 1994- Editora Moderna. 
     
    Estudo da primeira planta baixa, não está de acordo com as obras executadas na inauguração do prédio.
     
    Aula de educação física, ao fundo a sala arredondada que depois de demolida, em 1933, tornou-se o auditório.
     
    Interior da sala arredondada, conhecida como Orpheão.
     
    Fachada acrescida do terceiro andar.
     
    Sala Álvaro Guião, no terceiro andar do edifício, que teve recentemente seus móveis "moderizados".
     
    Detalhe Sala Álvaro Guião. Foto atual. Foto:Patrícia Golombek
     
    Auditório. Foto atual. Conserva as mesmas características de 1933. Foto: Patrícia Golombek
     
    Detalhe Escadarias Laterais. Foto: Patrícia Golombek
     
    Detalhe Corredor. Foto:Patrícia Golombek
     
    Pátio Modificado. Foto: Patrícia Golombek
     


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