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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Histórias Caetanistas

  • Quinta-Feira, 25 de Agosto de 2011
    Fernando Penteado Cardoso- aluno dos anos 1920
  • Quem não se lembra do slogan: "Com Manah, adubando, dá"? Esta empresa foi fundada por Fernando Penteado Cardoso.


    A “CAETANO” NOS AN0S 1920
    Em 1924 mudamo-nos das Perdizes para a Av. Angélica No.47 para ficarmos próximos da vovó Rita que morava no No.89. Meu pai transferiu então os dois filhos mais velhos para o Externato Cesário Mota situado na R. Gal. Jardim, próximo ao Largo do Arouche.
    No início de 1925 ele nos matriculou no mais afamado estabelecimento de ensino primário do país a Escola Modelo Caetano de Campos, na Praça da República. Eu tinha 11 anos.
    Ingressei no 3º.Ano Primário tendo conhecido a professora  Da. Branca do Canto e Mello que, mais tarde, se tornou educadora renomada vindo a merecer rua com seu nome no bairro de Ponte Rasa em S. Paulo.  Ela era bem clara, baixinha e um tanto gorducha.
    Tínhamos muito orgulho do prédio que tomava a frente de um quarteirão inteiro, principalmente porque estávamos acostumados com modestas casas residenciais onde se instalavam os “externatos”. A construção, em forma de “U”, tinha então um andar a menos do que hoje. Atrás ficavam os pátios de recreio e o pavilhão de reuniões e cerimônias escolares.
    O regime era se separação de sexos: meninos de um lado garotas de outro, tanto nas classes como nos recreios. Somente à saída, nos uníamos na calçada do lado direito do prédio principal, – olhando de frente-, onde vendiam pipocas e pirolitos.
    Após 86 anos, os poucos fatos que vêm à memória surgem sem cronologia definida. Assim, ao relembrá-los não sei em que ano ocorreram. São casinhos um tanto pueris, ajustados à idade  do menino que os viveu.
    Na Escola Modelo permaneci por 3 anos, vindo a completar o 4º.Ano  Primário e o 1º. Ano do  Curso Complementar, o qual tinha dois anos e era preparatório para a Escola Normal, onde se diplomavam as professoras.

    Tínhamos aulas de ginástica sueca dirigidas pelo Prof. Fritjof Dettow,  um sueco que arranhava o português  mas era muito enérgico. Eu me orgulhava de já o conhecer, pois desde anos antes  ele ia a nossa casa, contratado por meu pai para exercitar os cinco irmãos para que tivessem boa saúde. Certa feita, em feriado nacional, a turma de alunos fez uma exibição para as autoridades em uma dos pátios internos da Praça. Estávamos todos uniformizados e levamos muito a sério o show de ginástica sueca.
    Outra vez tivemos um cochicho generalizado em meia voz ao comentar o boato de que um aluno havia visto certo professor agarrado a uma professora no banheiro da escola. Foi um nunca acabar de hipóteses nas mentes fantasiosas e ingênuas de 12 anos de idade.
    Em outro feriado o melhor aluno foi designado para plantar uma árvore com discurso e tudo. Fui o escolhido e li, suando frio, o escrito redigido pela professora. A árvore era um pé de café que lá ficou por muitos  anos, no canto lateral direito, trazendo doces lembranças ao já formado  agrônomo, talvez inspirado por aquele ato ao ter que  escolher uma profissão.
    Eu era muito tímido e não tinha coragem de iniciar conversa com as meninas que não conhecia. Invejava os colegas atirados que confraternizavam com as garotas na hora da saída. Criei na imaginação que tinha uma namorada que eu mirava de longe no recreio e que informaram chamar-se Violeta. Nunca falei com ela, mas limitava-me à fantasia de que ela também me olhava de longe.
    Uma vez um carro atropelou uma estudante em frente da saída. Evitei o ajuntamento que se formou, mas fiquei muito impressionado porque o automóvel tinha um radiador em forma de quilha que poderia ter machucado a menina.
    Iniciaram um grupo de escoteiros ao qual me filiei. Roupa kaki, calça larga tipo culote, cinturão de fivela dourada, polainas acima das botinas, lenço vermelho no pescoço e chapéu com copa de quatro gomos. Quanto orgulho com os ensinamentos de “Sempre Alerta”,  boas ações, marchas, excursões e os regulamentos ditados por Baden Powell, um inglês fundador desse movimento juvenil.
    Sempre fui um bom aluno desde os tempos de externato. Meus boletins conservados com orgulho por minha mãe mostram o grau de meus esforços. A nota máxima era “12” naqueles tempos e no 3º. Ano tirei nota 12 tanto em comportamento como em aplicação em todos os meses de freqüência.


    Havia aula de modelagem no porão da Escola. Um professor mal barbeado, magro e grisalho nos fornecia certa massa de argila cinzenta, coma qual compúnhamos figuras de pessoas, animais e casas. Parecia brincadeira.
    No Curso Complementar, equivalente ao 1º.Ano ginasial, havia aula de música com a qual eu tinha dificuldade. No exame de fim de ano levaram um pequeno órgão portátil acionado a manivela e tocaram uma breve ária, cujas notas e claves devíamos traduzir graficamente. Foi a única reprovação em toda minha vida.  Passei por média com as notas 12 nas demais provas. O boletim desse curso não foi colecionado por minha mãe, talvez por conter uma nota zero.
    Nossos diretores foram o Seu Arnaldo e o Seu Cardim que a gente pouco via nos corredores. Dos professores lembro-me de Da. Branca, de Seu Rizzo, de Seu Olavo e de Seu Sangirardi. Alguns assinaram os boletins, outros não. Eram muito dedicados e ensinavam varias matérias, encarregados que eram de uma só classe, com a qual conviviam e se identificavam.
    Meu irmão mais moço e eu íamos a pé para a escola,  acompanhados por meu pai. Seguíamos pela Al.Barros, R.das Palmeiras, Largo e R. do Arouche. Passávamos em frente da Igreja de Sta.Cecília,  do Cine Royal (Clara Bow, Tom Mix, Carlito, Rodolpho Valentino na tela molhada e muda logo acima da orquestra com violinos)  de  um bebedouro circular, verde, de ferro fundido, onde cavalos e mulas de tiro vinham saciar a sede.
    Minha mala de livros era muito pesada porque, alem dos livros e cadernos, levava um lanche para comer no recreio e um par de galochas para cobrir os sapatos em dias de chuva. Eu implicava com as galochas de borracha pelo aumento de peso que causavam.
    Conservamos algumas fotos de fim de ano mostrando a turma de alunos e seu professor. Lá estou eu, de calça curta, nos anos 1925, 26 e 27. Ao meu lado os colegas que conviveram comigo.
    As caminhadas, ao lado das aulas de ginástica sueca, das gemadas, de comer verduras, do óleo de fígado de bacalhau, do copo de leite, de dormir cedo, de não molhar os pés, de levar agasalho, alem de outras regras e proibições, decorriam da preocupação de nossos pais com a saúde dos filhos.
    Nunca mais os encontrei embora me lembre de algumas feições. Nenhum deles seguiu o mesmo caminho que o meu de freqüentar o Colégio São Luiz na Av. Paulista e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em Piracicaba.
    Que aconteceu com eles? Para onde foram? Certamente integraram-se  na sociedade brasileira com o destino que os torna distintos uns dos outros. Talvez existam alguns sobreviventes como eu. Por onde andariam?  Só Deus sabe a vida que lhes foi reservada.
    Como seria bom se algum deles chegasse a ler estas memórias e também viesse a contar suas recordações.
    Faz. Aparecida, Mogi Mirim/ SP, 8.7.11

     

     

     

     

      1925- 3* ano

     



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