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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Histórias Caetanistas

  • Sábado, 21 de Janeiro de 2012
    Ludgero Prestes
  • Ludgero Prestes foi o filho adotado por Gabriel Prestes ( esse último  formou-se na Escola Normal e substituiu Caetano de Campos na direção da escola quando este veio a falecer).
    Pouco se sabia da história deste que também foi aluno e se formou na Escola Normal e acabou virando diretor de uma escola. Foi graças à pesquisa da historiadora Vanessa Sattamini Varão Monteiro, com a ida dela ao acervo de nossa Escola, entre outras coisas, que tudo veio à tona. A seguir essa incrível história de busca:



    Li o livro do professor Calasans em julho de 2005. Eu acabara de voltar de Salvador e de Canudos, para onde tinha viajado à procura de material para minha dissertação de mestrado. A pergunta chamou minha atenção. Perguntas sem resposta sempre me intrigaram. Vinha trabalhando com os órfãos da guerra de Canudos desde a graduação. Meu interesse pelo tema começou durante uma aula, quando a professora Margarida de Souza Neves disse que a República não poupara esforços para varrer Canudos do mapa e “que Canudos tinha de ser apagado inclusive dos corações e das mentes dos canudinhos”, como eram chamados os pequenos órfãos da guerra. A situação dessas crianças – distribuídas para servir de mão-de-obra ou levadas por soldados a título de “lembrança viva” da campanha – pareceu-me a mais cruel das violências empreendidas pelo governo republicano  .

    Não há uma estimativa que quantifique o número de órfãos ao final da guerra, assim como igualmente não há consenso sobre o número de habitantes de Canudos. Estima-se que havia 5 mil famílias morando lá, e que, por conseguinte, o total de órfãos, ao final do conflito, teria sido bastante significativo. A prática de distribuição de crianças, a venda e o uso desses menores para mão de obra doméstica foi bastante comum naqueles dias. A situação chegou a ser descrita como “uma nova escravidão” que passara a assolar a Bahia. No decorrer da terceira expedição militar, cidadãos compadecidos da sorte dos sobreviventes de Canudos criaram em Salvador o Comitê Patriótico da Bahia, que atuou no auxílio às vitimas da guerra entre 1897 e 1901. O Comitê formou uma comissão especial para recolher e encaminhar as crianças sertanejas a orfanatos ou para restituí-las às famílias. No entanto, apesar de todo o empenho, muitas crianças já haviam sido levadas por soldados que muitas vezes as repassaram a outrem.
    Euclides da Cunha, como correspondente do Estado de S. Paulo, permaneceu na região por quase três semanas em 1897. Deixou Canudos na manhã de 3 de outubro, dois dias antes do fim da guerra, doente e acometido por  acessos de febre. Levou consigo o menino jagunço que recebeu como “presente” do general Artur Oscar, comandante da quarta e última expedição militar.

     

     Euclides da Cunha

    Durante meses, volta e meia, a pergunta de Calasans vinha à minha mente, procurava sem sucesso uma resposta enquanto pensava, inconformada, que ninguém desaparece assim, não se vive uma vida inteira sem deixar pistas. A última notícia é que o jaguncinho havia se formado professor primário, em 1908. O garoto adotara o sobrenome do tutor e passara a se chamar Ludgero Prestes. O único documento era uma carta de Euclides, em resposta a uma carta de Ludgero de 3 de outubro de 1908, na qual, saudando o fato de o antigo jaguncinho ter-se tornado professor primário, escreveu:
    “Ludgero Prestes, recebi a sua prezada carta de 3 do corrente; li-a com surpresa indescritível, verdadeiramente encantado; e não poderei traduzir-te a minha comoção ao ver aparecer-me quase homem – e homem na mais digna significação da palavra – o pobre jaguncinho que me apareceu pela primeira vez há onze anos no final da batalha. Mas na mesma ocasião associei-te à recordação de um amigo a quem deves muito mais do que a mim. O que fiz foi, na verdade, muito bom: o trabalho material de livrar-te das mãos dos bárbaros e conduzir-te a São Paulo”.

    E isto era tudo o que eu sabia. Procurei em livros, artigos e nada. Ludgero, depois de formado, não havia deixado rastros. Sobre o pai adotivo, muitas informações.  Era um importante educador paulista, com livro publicado, acervo em museu no interior de São Paulo, mas Ludgero parecia ter desaparecido. Quando achei que já tinha feito o possível lancei mão de um recurso que normalmente os historiadores não vêem com bons olhos. Abri o computador e digitei no Google – Ludgero Prestes. E assim cheguei a um site. Era um portal do Governo de São Paulo, mais precisamente do Centro de Referência em Educação Mario Covas.
    A página trazia a história da Escola Estadual Abílio Manoel, em Bebedouro – São Paulo, inaugurada em 1913 com o nome de Grupo Escolar de Bebedouro e que teve como seu primeiro diretor o professor Ludgero Prestes. Liguei para a escola, me identifiquei, a professora Nádia Aparecida Cursi veio ao telefone e iniciamos uma parceria na pesquisa. Após este primeiro momento, mantivemos um contato virtual e telefônico semanal no qual Nádia, com a ajuda dos alunos, localizava nos arquivos da escola todo e qualquer documento da época de Ludgero. Seis meses de trabalho conjunto se passaram e não chegamos a nenhum documento que nos desse a confirmação de que o professor Ludgero Prestes era o menino Ludgero, trazido por Euclides da Cunha de Canudos. Como não desisto com facilidade, arrumei as malas e parti para Bebedouro. Se realmente não havia nada, eu queria constatar isso pessoalmente, além, é claro, de querer conhecer meus novos e dedicados cúmplices de jornada.
    Nádia havia separado os documentos. Eram livros de registro sobre a administração do grupo escolar, e cada livro tinha 50 folhas rubricadas, uma a uma, as anotações eram manuscritas, datadas e assinadas pelo professor Ludgero e por inspetores de ensino que freqüentemente visitavam o colégio. Pouco a pouco o misterioso “canudinho” se materializava, e já tinha um rosto e uma caligrafia. Comecei a examinar os livros e logo na segunda folha estava transcrito: “O Presidente do Estado resolve nomear o prof. Ludgero Prestes adjunto do Grupo Escolar de Serra Negra para exercer o cargo de diretor interino do Grupo Escolar de Bebedouro. Palácio do Governo de São Paulo aos 7 de abril de mil novecentos e treze (...) Por decreto de 7 de abril de 1913 registrado a fls 19 [sic] do livro competente nº 3. Secretaria do Interior.”  
    Festejei a descoberta: afinal, era só achar o tal “livro competente” e ver se achava alguma pista, que poderia ser seu número de matrícula como professor, ficha de inscrição, ou qualquer documento que fornecesse algum dado pessoal, tal como um número de registro de identidade ou filiação. Precisava descobrir onde estava a documentação da Secretaria do Interior, já que a criação da Secretaria de Educação de São Paulo foi posterior ao registro encontrado em Bebedouro. De qualquer maneira, a visita a Bebedouro havia indicado o próximo passo da pesquisa.
    Se o Ludgero de Bebedouro era o menino de Canudos criado por Gabriel Prestes, amigo de Euclides, ele provavelmente teria estudado na Escola Caetano de Campos, em São Paulo. Esta hipótese sustentava-se no fato de Gabriel Prestes ter sido diretor da escola na época em que recebeu o menino. Liguei para o Memorial da Educação e perguntei se a documentação da escola estava preservada. Estava! Diógenes, um dos funcionários da instituição, mandou-me um e-mail dias depois. Ludgero tinha sido aluno da escola, durante toda sua vida escolar e seus registros estavam disponíveis. Agendamos minha visita e voei do Rio de Janeiro para São Paulo.

     

         Gabriel Prestes

    Tive acesso aos livros de matrícula, às notas que ele teve nas várias disciplinas e ao registro de seu diploma. Na primeira matrícula escolar no primário, na coluna destinada à filiação aparece Gabriel Prestes como seu tutor e sua origem era a Bahia. Já na segunda matrícula, sua filiação aparece como “ignorada”. Nas matrículas subseqüentes, Gabriel volta a figurar como tutor. Uma vez em São Paulo, fui à Imprensa Oficial na esperança de que o decreto que tinha encontrado manuscrito em Bebedouro me levasse a alguma outra pista. O decreto estava lá, mas não trazia qualquer outra indicação com novas informações.
    Por uma dessas razões que não conseguimos explicar, continuei folheando o Diário Oficial e encontrei, poucos dias após o decreto de nomeação de Ludgero Prestes, um pedido de transferência, também de Serra Negra para Bebedouro, de uma professora cujo nome me despertou a atenção. Ela se chamava Beatriz da Cunha Lima Prestes. Naquele momento, eu não tinha dúvidas. Só poderia ser a mulher de Ludgero. Agora ele tinha um rosto, uma caligrafia e uma esposa.
    Voltei então à Imprensa Oficial com o seguinte raciocínio: se Beatriz pedira transferência de Serra Negra para Bebedouro, em algum momento anterior ela foi admitida em Serra Negra como professora. Precisava achar o decreto de sua nomeação para verificar se ela entrara na escola solteira ou já casada. A partir daí, foi procurar agulha no palheiro... Não tinha idéia do ano, nem do mês, quanto mais do dia de sua nomeação. Resolvi arbitrar o ano seguinte à formatura de Ludgero, ou seja, 1909, como minha data inicial para a busca. Era uma simples suposição, mas era preciso partir de algum lugar. No terceiro dia de pesquisa a sorte me sorriu. Em janeiro de 1910 Beatriz da Cunha Lima entrou como “complementarista” na Escola de Serra Negra. Estava ali o que eu precisava: Ludgero e Beatriz casaram-se em Serra Negra, antes de irem para Bebedouro.
    A partir deste ponto foi só efetuar uma pesquisa na Internet sobre os cartórios existentes em Serra Negra, localizar o mais antigo deles e entrar em contato com os funcionários. Cerca de quinze dias depois do primeiro contato recebi em casa, pelo correio, uma cópia da certidão de casamento de Ludgero e Beatriz. Este documento me deu a tão buscada confirmação, pois dele constava um registro precioso: o noivo, Ludgero Prestes, era nascido em Canudos-BA, há 21 anos, tendo como pais João Luiz e Maria Luiz. Estava confirmado! O professor Ludgero Prestes, cujo rosto adulto e caligrafia eu já conhecia, era mesmo o jaguncinho trazido do palco do conflito por Euclides da Cunha.
    A pergunta formulada pelo professor Calasans estava, portanto, respondida. Depois de 1908, Ludgero foi professor em Serra Negra, diretor interino do Grupo Escolar de Bebedouro e professor em Amparo, onde faleceu a 13 de outubro de 1934, com 43 anos, de câncer de fígado. Deixou quatro filhos: três meninos, sendo dois gêmeos e uma menina, com idades entre 21 e 18 anos por ocasião de sua morte.
    No dia 22 de setembro de 1897, Euclides da Cunha anotou na sua caderneta: “Noto com tristeza que o jaguncinho que me foi dado pelo general (Artur Oscar) continua doente e talvez não resista à viagem para Monte Santo”. Sabemos que o jaguncinho resistiu não só ao trecho até Monte Santo, como também que cresceu, estudou, fez-se professor, constituiu família e viveu até os 43 anos de idade. O que é possível saber é isso – e também que perdeu pai e mãe e guardou vivamente na memória os episódios sangrentos da guerra.

    Emblemático e merecedor de reflexão é o fato de que, livre das “mãos dos bárbaros”, ao ser matriculado na escola, Ludgero ganha uma data de aniversário – 15 de novembro. Não sei se esta é a data real, mas me parece coincidência demais. Parece muito mais significativo que esta tenha sido a data escolhida para marcar a conquista do butim simbólico da guerra que era o menino jagunço. A data escolhida para marcar seu novo nascimento registrava que ele nascia para uma nova vida, entre os civilizados, no dia da proclamação da República.
    Outro fato significativo na trajetória de Ludgero que merece reflexão diz respeito à memória. Não é possível aferir que lembranças exatamente ele guardou da guerra que testemunhou, dos pais, de seus dias no arraial. No entanto, quando ele estava no último ano de formação, e teria 17 para 18 anos, seu registro escolar muda. A invés de Gabriel Prestes como tutor, aparece pela primeira vez o nome de seu pai – João Luiz, assim mesmo, com um sobrenome que é um nome próprio, provavelmente como o menino de 7 anos lembrava que seu pai era chamado. Na sua certidão de casamento, apesar de assumir para si o sobrenome Prestes, que usou por toda a vida, seus pais são João e Maria Luiz, e sua origem inequívoca é Canudos. Estes indícios documentais permitem deduzir que, mesmo desterrado de Belo Monte e levado para São Paulo, o menino Ludgero não esqueceu sua origem jagunça – o apagamento da memória, neste caso,não se efetivou de todo.

     

    A foto do professor Ludgero de terno escuro, no pátio do Grupo Escolar de Bebedouro, em meio a crianças tão bem vestidas, engomadas, penteadas, posando para o fotógrafo, em nada faz lembrar a imagem de desalento dos últimos dias de Canudos, registrados por Flávio de Barros. A foto da rendição, de 2 de outubro, mostra crianças esqueléticas, seminuas, encolhidas, esfomeadas e sedentas. São duas realidades tão díspares que parecem não se tocar, mas ali, ainda que tão distante do sertão, está o elo que une os dois momentos – Ludgero, agora Prestes, que se correspondeu com Euclides da Cunha, que homenageou o tutor ao dar ao primeiro filho o nome de Gabriel, mas que levou consigo João, Maria Luiz e Canudos.

     

    Grupo Escolar de Bebedouro


    Fonte: Vanessa S. V. Monteiro-revistadehistoria.com.br- 7/11/ 2007



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