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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Histórias Caetanistas

  • Segunda-Feira, 12 de Março de 2012
    Mrio Almeida
  • Mário Almeida estudou na década de 1940 e foi colega de turma de Modesto Carvalhosa, o querido colega que salvou a nossa Escola de ir à baixo em 1975, devido às obras do Metrô.
    Aqui vai uma matéria que postou em 2009  e conta sobre o site do CRE Mário Covas:

     

    Semana passada descobri que há um grupo e um novo site que acolhe os depoimentos de ex-alunos e tudo que possa interessar à memória da nossa Escola Caetano de Campos.

    Para o primeiro site ( São Paulo, minha cidade) eu havia mandado umas 10 linhas no ano passado e só agora descobri um depoimento de Virgínia André, que cursou parte do ginásio na mesma época que eu. Ela contou  umas lembranças e me fez algumas perguntas:

    Prezado Mário Almeida, acho que fomos colegas! entrei na Caetano em 1943, no quinto ano primário, depois no ginasial, quando fiquei até 1947.Você se lembra do prof. de latim, sr. Geraldo? E do prof. Fausto de Português? e do prof. Orestes Rosolia de História? e do prof. Veloso de matemática? e dos outros professores?e de D. carolina Ribeiro, a diretora? Eu me lembro de todos e tenho muitas saudades daquela escola e da Praça da República, onde íamos estudar Botânica com a professora de Ciências! A minha formatura do ginasial foi no Clube Harmonia, que chic! Obrigada por me fazer recordar de tempos tão maravilhosos!        Virgínia
    Não conheço a Virgínia, mas é claro que respondi e repasso para tus (vocês) alguns trechos:
    "Cara Virgínia, somos contemporâneos, é claro. Dos professores que você cita, só não fui aluno do Geraldo. O meu professor de Latim, o José, talvez tenha lecionado pela última vez para a minha turma, pois era muito velho e deve haver se aposentado em seguida.
    Quanto ao Orestes Rosolia, de História Geral, foi o melhor professor, entre muitos outros ótimos, de toda a minha vida. Já escrevi sobre ele, apesar de nunca ter tido um contato pessoal. A primeira vez que fui ao Louvre, numa sala da civilização fenícia, “ouvi” a voz dele falando sobre aquele povo de comerciantes e de navegadores. Moro no Rio há muito e ele certamente passou por aqui, pois há uma rua com o seu nome. Da Grécia, também há décadas, minha irmã Célia, por haver se lembrado do antigo professor, mandou-me um postal perguntando se eu havia sido aluno dele.

    O Fausto, de Português, grande mancha marrom na testa, ao ler uma redação minha, descobriu um galicismo e durante minutos deu uma aula sobre o que eu nem sabia existir.
    O Velloso, da Matemática, de cujo filho fui colega, dava aula com a mão direita no bolso das calças. Ele foi ao encontro que promovemos na escola, cuja demolição já estava acertada, mas que conseguimos – advogado Modesto Carvalhosa, ex-colega e amigo para sempre  - tombar como patrimônio do ensino paulista.
    Nosso paraninfo na formatura do Ginásio foi o luso Eurico, professor de Inglês que uma vez por mês nos dava uma “aula cantada“: oh my darling, oh my darling Clementine.
    Cantava-se de verdade nas aulas de Canto Orfeônico, menos eu. O maestro Caldeira percebeu logo que eu não engatilhava duas notas musicais. Nas provas mensais e nos exames orais, ele me mandava dizer a letra de um dos hinos brasileiros. Acho que ainda sei as letras de todos.
    Outras: Ernestina e Madame Marina, de Francês. Dos momentos mais emocionantes de minha vida aconteceu numa aula de Francês. Madame Marina, uma bela balzaquiana, fugira de Paris antes que os nazistas ocupassem  a França. Pouco depois das 10 horas da manhã, dona Alice, a eterna inspetora de alunos, entrou na sala para avisar que as aulas estavam suspensas. Sem que ninguém falasse, a classe se levantou e começou a cantar a Marselhesa. Era 8 de maio de 1945: Alemanha e Itália haviam assinado os termos de rendição na Segunda Guerra Mundial. Esse foi, talvez, o maior momento mágico desses meus 77 anos de vida.
    Outras e outros: Galina, de Desenho, chegava na classe e ia para a janela onde escarrava, ia para o quadro e começava a aula. Aristides, de Geografia, doce figura cujo físico me fazia pensar num príncipe que virara sapo. Chiquinha, de Ciências. Antonieta de Paula Souza – uma excrescência do magistério - ditava as aulas de Geografia.
    Não fosse eu estimado pela direção da Caetano e vice-presidente do Grêmio 2 de Agosto, teria sido expulso quando esfreguei o dedo no nariz da Antonieta, repetindo a frase que, insultada, desafiou-me a repetir: “Senso pedagógico absurdo”. Minha mãe foi chamada pela diretora Nair de Barros e fechamos um acordo: eu não assistiria mais às aulas da excrescência, tirando zero nas provas mensais. Nair, outra doce mas enérgica figura, creio que também concordava  com o “senso pedagógico absurdo”.
    Naquele incidente, Nair substituía o professor Francisco Cimino, demitido por Ademar de Barros depois de uma passeata realizada contra ele numa noite, pelo centro de São Paulo. Eu discursei na frente da Faculdade de Direito, no Largo São Francisco. Foi a glória, senti-me o próprio Rui Barbosa. Ou Castro Alves?
    O imbróglio da demissão do professor Cimino, que insistia em autorizar a concessão da cantina escolar sem concorrência pública, resultou também na queda do secretário de Educação do Estado, Juvenal Lino de Matos.
    Carolina Ribeiro, que por longo tempo já dirigira a escola, voltou para onde nunca deveria haver saído. Era ela novamente a diretora quando eu cursava as 3ª e 4ª séries e me convocava como orador em todos os eventos onde um aluno deveria representar o corpo discente. Eu falava antes dela. Invertendo a ordem repetimos a dose, 30 anos depois, num palanque que armamos no jardim fronteiro, junto à escadaria central da escola, no nosso movimento antidemolição. Ela tingia os cabelos de azul e era uma figura imponente, lembra-se, Virgínia? Logo que o Getúlio foi defenestrado como ditador, em 1944, e o Estado Novo acabou, ela filiou-se ao Partido Republicano Paulista. Foi uma excelente e douta oradora e ativa militante política do PRP.
    Logo no primeiro ano do Ginásio ganhei minha primeira expulsão de classe, na aula inaugural de Trabalhos Manuais. Benedito, um pobre homem, querendo ressaltar a importância de sua “cátedra”, soltou essa frase: “Já dizia o filósofo grego Anaxágoras que o homem pensa porque tem mãos”. Na minha santa lógica formal perguntei:
    - E o maneta, professor?
    - Para fora, já!


      Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de "Antonio's, caleidoscópio de um bar" (Ed. Record), "O Comércio no Brasil – Iluminando a Memória" (Confederação Nacional do Comércio), "Confederação Nacional do Comércio - 60 Anos" (CNC); co-autor, com Rafael Guimaraens, de "Trem de Volta - Teatro de Equipe" (Libretos); um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis) e do recém lançado “Almanaque do Camaleão” (Léo Christiano Editorial). Reside no Rio e há anos é diretor-editor de AciBarra em revista.



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