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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Histórias Caetanistas

  • Segunda-Feira, 30 de Abril de 2012
    Por Egle Fincato Fleury
  • Por que será que a Justiça de minha querida São Paulo está me castigando há três anos e não desfaz o nó de um processo que me amargura o coração?
     Será que é pelo meu fanático paulistanismo?

    Tenho culpa de ter nascido na Rua Amazonas (ao lado da Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora dos Salesianos e nas proximidades do Mosteiro da Luz, de Frei Antonio de Sant'Ana Galão), "Walquiria" que sou, de sanguinho alemão, herdado de minha avó paterna?
    
E de ter sido batizada na Igreja de Santa Efigênia - de D. Gastão Liberal Pinto?
     E de ter sido crismada em Vila Mariana, onde então morava meu "nonno", sendo madrinha minha tia avó Romana (Igreja da Saúde na Domingos de Morais)?
     E, maiorzinha, ter assistido, com meus pais e irmã maior, missa domingueira na S. Bento?
E, após a missa, ir com o meu pai à "Brasserie Paulista", onde ele se encontrava com amigos (como ele, ex-combatentes da 1ª Guerra Mundial, de 1914) enquanto eu me regalava com pistaches e, a seguir, escolhia folhados recheados com cremes para levar para casa (Praça Antônio Prado, topo da São João)?
    
E de ir com meus avós tomar milk-shake ou cassata italiana, na Fazoli, ou na confeitaria Fontana na Rua Direita, onde havia orquestrinhas - músicos como os irmãos Poffo e outros?
    
E de ter freqüentado, com minha família, o Cine Rosário, no recém-inaugurado Edifício Martinelli?
    E de, com quatro aninhos, ter feito meu "debut" como freqüentadora do nosso Teatro Municipal, assistindo, de camarote, a Ópera Tosca?
     E de ter brincado no Jardim da Luz, onde havia um mini-zoológico, com pavões, emas, avestruzes, tartarugas, araras, papagaios, coelhos, lindos passarinhos nas gaiolas, peixinhos coloridos no meio de flores, muitas flores e árvores frondosas?
    
E de ter, em muitos fins de semana, ido com o trem da São Paulo Railway, que descia de cremalheira a Serra, até Santos (Estação linda defronte ao Jardim homônimo)?
    
E de, nas férias escolares, descer até o litoral, pela antiga Estrada do Mar, na enorme Fiat do "Zio Giovanni", onde cabia a família, dele e a nossa?

    E de ter estudado no Colégio Santa Inês, das Irmãs Salesianas, defronte à linda Escola de Odontologia e Farmácia (Rua Três Rios)?
     E de, orgulhosamente, ter sido colega de turma de famosos - Ligia Fagundes Teles, Auro Moura Andrade e outros -, na nossa maravilhosa e célebre Escola Normal da Praça da República (mais tarde, Instituto Caetano de Campos)?
    E onde tive o privilégio de ter professores do porte de um Silveira Bueno, um dos maiores filólogos da nossa língua, Dr. Carlos da Silveira, professor de história e que chamava a colega Elza Fleury de índia; e o Professor Ozório de química, que se despediu da classe dando notícia da divisão do átomo, em curso na ocasião; e o de Física, Dr. Ferraz, que morava na Avenida Paulista.
    E o professor Rivadavia de latim, e o professor Vilhena de matemática, e o professor Cardim de ciência, e o professor Azzi, que me fez amar a língua francesa.
Aí, na mesma escola, assisti em francês, mais tarde, uma maravilhosa palestra do sociólogo George Duhamell.
E nos dias de Finados, visitar os cemitérios do Araçá e o da Consolação, onde estão sepultados nossos parentes? (De que guardo na memória uma cantilena triste de meninas uniformizadas de cinza e que ladeavam a Alameda Central da entrada:
    "Esmola para as órfãs... esmola para as órfãs...”)

    E de estar numa festa de casamento na Avenida Paulista, quase esquina da Brigadeiro Luiz Antonio, quando chegaram rapazes convidados, atrasados, trazendo notícias dos acontecimentos na Praça da República com os M.M.D.C. (início da revolução de 9 de Julho de 1932)?
    E de ter assistido com os meus pais, na Praça do Patriarca, comícios ouvindo o Tribuno Ibrahim Nobre (nas escadas da estatua de José Bonifácio), proferir seus inflamados discursos? (Outras vezes, ouvi cantarem: "João Pessoa, João Pessoa, o teu vulto varonil...")
E de lembrar a voz de César Ladeira, que repetia, insistentemente, pelo rádio, a notícia da chegada ao Campo de Marte do líder João Neves da Fontoura?
    
E de ter tratado dos dentinhos com uma dentista alemã (Elza Klein) no Edifício Santa Helena (na lateral esquerda da nossa majestosa Catedral da Sé), famoso porque era ali que se reuniam os integrantes da Semana da Arte Moderna de 22?
    
E de ter ganho "bambole Lenci" e bombons Falchi, nas festas da Epifania (Reis Magos) no "Círcolo Italiano", na rua da "Saudade em Flor", do nosso Guilherme de Almeida (onde se ergue hoje o Edifício Itália)? No Salão Nobre, havia lindíssimos afrescos, representando a Divina Comédia - Inferno, Purgatório e Paraíso, com os quais, menina, eu me extasiava. Nos tempos áureos do Fascismo, visitavam o Brasil personalidades que aí eram recebidas nessa sede.
    Pessoalmente, vi o futurista Marinetti, os "Sorci Verdi" (ratos verdes), aviadores italianos (com dois jovens filhos de Mussolini).
E de ir visitar com "Zia Antonieta", no Hotel Esplanada, uma amiga que lá morava (bem atrás do teatro e onde se hospedavam, nas temporadas líricas, Gigli, Bidú Sayão, Ezio Pinza, Tito Schipa, Tita Ruffo, penso que o próprio Caruso, Renata Tebaldi e outros – hoje, Edifício da Votorantim).
    
E de ter morado na Alameda Itu, próximo à Rua Augusta (de nenhum comércio nessa época)?
     E de descer de bicicleta, diariamente, a Rua Haddock Lobo, para ir ver a "nonna" que morava no fim desta, quase chegando na Estados Unidos?
    
E de ter conhecido as enormes vitrines da "Mappin Store", exibindo suas maravilhosas louças inglesas e as vitrines da Casa São Nicolau de brinquedos, malas e pastas, e a Casa Dirceu, de deliciosos doces feitos por prendadas paulistas, em suas próprias casas. E a Casa Fausto, de finas gravatas e camisas.
     E a Casa Fretin, de artigos cirúrgicos. Tudo aí na nossa Patriarca.
    
E na Rua Direita a "chic" Casa Alemã, com seus móveis artesanais e tapeçarias.
     E a "Slooper" famosa. E as casas de instrumentos musicais e partituras nas ruas Direita e São Bento - Campassi e Camin, Beethoven, Chopine Manon.
    E na Rua 15 de novembro, as casas de pratarias e jóias - Adam e Michel. E a Sonksen de Chocolates.

    E as casa de tecidos finos como a Lenk, a Bonilha, a Hamburguêsa.
    E ballets. 
E na Barão de Itapetininga, ir tomar chá na confeitaria Vienense, depois das matinês de domingo, nos cinemas da redondeza – Metro, Marabá, Ipiranga.
     E as casas Isnard e Casoy. E de ter feito fila nas escadarias do Municipal para adquirir (ou ganhar) entradas para assistir Shakespeare com Ermete Zacconi - Rei Lear - ou Pirandello com Maria Melatto. E óperas.
     Eu devia ter uns dois aninhos e lembro bem numa das largas janelas envidraçadas da nossa antiga e linda casa térrea (de propriedade de uns nossos vizinhos e amigos - os alemães Auaback); eu espiava diariamente o acendedor do lampião
chegar, com sua "varinha mágica".
    
E em tempo, uma coisinha linda e romântica: nessa esquina das ruas Amazonas e Três Rios, onde eu criança morava, havia um poste de iluminação pública da época - o famoso lampião de gás - cantado por Inesita Barroso.
    
E na mesma rua havia a padaria Lanci e a marcenaria dos Helmeister.
    
Se esqueci muita coisa mais, que me perdoem, minha São Paulo antiga e meus contemporâneos. Sou de 1920. Abaixo está meu endereço, para quem quiser me dar um olá! E puxar minhas orelhas por algo esquecido.


    Egle Fincato Fleury

    FONTE:  site: São Paulo, minha cidade



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