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Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Histórias Caetanistas

  • Quarta-Feira, 09 de Março de 2011
    Esqueleto Danarino - A verdadeira histria
  • O esqueleto dançarino, história ocorrida em 1976: do ponto de vista da vítima:

     

      Estava aplicada em copiar as lições do quadro negro, em plena aula da manhã, quando uma poeira começou a   surgir nas folhas brancas de meu caderno. Limpei e não dei muita atenção, continuei escrevendo. Porém, em segundos a poeira tornou-se grãos e os grãos viraram pequenos pedaços de estuque que desprendiam do teto diretamente para minha carteira. Em pouco tempo estávamos todos olhando para cima aguardando o desenrolar dos fatos...
    O que era um pequeno buraco no teto foi ligeiramente alargado por um dedo,que se nos expôs tal qual minhoca adolescente em plena luz da manhã. Retirado o dedo,veio a surpresa:dois pequenos pés, seguidos de tíbias, fêmures, pelve, tórax, braços,mãos e crânio:Pronto!
    Lá estava uma caveirinha de plástico, branquinha (provavelmente daquelas que fosforescem no escuro) pendurada por um fio de nylon, que foi chacoalhada, dançou no ar por poucos minutos e foi retirada rapidamente pelo autor da façanha.
    Todos demos muitas risadas. Foi inédito! Confesso que senti uma admiração enorme –quase uma pontinha de inveja- pelo dono do “feito”,pelo seu grau de “atrevimento” e “transgressão” em furar o teto e pendurar uma caveirinha. Mal sabia eu que no futuro eu veria esqueletos de verdade na faculdade de medicina. Ainda bem que eles não dançaram na aula de anatomia!!!
                
    Glaura M A Lisboa
     
     
    O esqueleto dançarino: do ponto de vista dos autores:
      
                O assistente do diretor (Ubirajara) do colégio entrou na sala de aula e nos avisou que iríamos ficar por algum tempo, sem as aulas de português, pois a professora havia adoecido e a diretoria já estava providenciando uma substituta à altura.
    - Matusquela, que maravilha, disse eu. ( o nome do matusquela era Henry).
    -Vamos ter duas aulas seguidas na segunda e duas na sexta pra não fazer nada.
    -Pensando bem, disse o matusca, acho que vai ser um saco.
    _Que nada, vamos pensar em alguma coisa pra fazer. É o nosso último ano aqui, temos que deixar a nossa marca.
    O matusquela era descendente de judeu e eu de árabe. Imaginem que mistura explosiva.
    No primeiro dia da folga dupla, enquanto a maioria dos alunos permanecia na classe estudando, eu e o matusca saímos a procurar por algum lugar que nunca estivéssemos ido naquela imensidão de colégio e, numa dessas peregrinações, até então infrutíferas, resolvemos dar uma volta no anfiteatro.
     Qual foi a nossa surpresa ao descobrirmos atrás das cortinas do palco, uma escada chumbada na parede que terminavas num alçapão, no forro do colégio.
    -Ô turco (assim é que ele me chamava), cê tem coragem de subir aquela escada?
    -Eu sou meio cagão pra altura, mas se você for eu vou.
    Não deu outra.
    O lugar era seguro, pois as cortinas do palco nos protegiam de qualquer  elemento estranho que por ventura  aparecesse por ali.
    O matusquela era magrinho, e eu gordinho. Assim, ele foi na frente, abriu o alçapão entrou no forro escuro e eu, atrás, entrei logo em seguida.
    Não era difícil. Bastava sentar na beira do alçapão e colocar as pernas pra dentro.
    Nosso coração disparou ao percebermos que estávamos em cima do colégio.
    Acima do forro, havia uma estrutura de madeira como uma grande ponte que percorria todo o espaço entre o forro e o telhado.
    Ao lado e acima dessa ponte, estavam os cabos da fiação do colégio.
    Tivemos um acesso de riso e de euforia por termos encontrado um lugar diferente, mas em seguida descemos com receio de sermos descobertos.
    Pronto, já tínhamos um objetivo. Vamos vasculhar todo aquele telhado.
    E assim, toda as folgas nós subíamos no forro, agora com uma pequena lanterna, e ficávamos andando pela ponte de madeira.
    O forro era formado por blocos quadrados de uma espécie de papelão resistente, cercado por vigas de madeira.
    Nós descíamos da ponte e pisávamos nessas vigas (Deus nos segurava. Afinal de contas, poucas vezes na história do mundo, um judeu e um árabe estiveram unidos por uma mesma causa).
    Escutávamos as vozes dos alunos e conseguíamos e até vê-los por algumas frestas.
    Éramos apaixonados pela professora de matemática, Thais, e sempre buscávamos a classe onde ela estava.
    Quando soube da nossa aventura, o Ulisses ficou preocupado.
    -Vocês vão se  fu... qualquer hora é melhor  pararem antes que alguém  descubra.
    Mas ele nem imaginava o que estava por vir.
    Em frente ao Colégio, na saída pra Avenida São Luis, havia uma banca de jornal e outros artigos diversos dentre os quais, pequenas caveirinhas articuladas para se grudar nos vidros traseiros dos carros.
    Assim que eu avistei aqueles esqueletos balançantes, me ocorreu a idéia de descê-los pelo teto na classe do meu irmão, na aula da professora Thais.
    O matusquela adorou a idéia, só que havia um pequeno entrave.
    Pra chegar até a classe do Ulisses, tínhamos que passar por cima do telhado, pois a classe ficava num outro bloco.
    No dia seguinte fez o simulado.
    Fomos até o final do corredor pela ponte, tiramos as telhas, subimos no telhado, retiramos as telhas do outro bloco e descemos até a estrutura de madeira.
    Nunca vou me esquecer de uns funcionários do edifício Itália que estavam lavando as janelas naqueles balanços e gritaram:- Ô mulecada safada!
    Nesse dia, comprei os esqueletos e coloquei-os na mala. À noite, fui até o quarto do meu pai, na gaveta do criado mudo, peguei uma caixa de giletes de barbear (naquela época não existia presto-barba), e no armário da sala, roubei um carretel de nylon que ele usava para pescar.
    De manhã eu disse pro Ulisses.
    -Hoje na aula de matemática, eu e o matusquela vamos descer 2 caveirinhas na tua sala.
    - Vocês vão se ferrar. Se eles  te  pegarem, é expulsão na certa.
    -Que nada, ninguém sabe como chegar lá (que ingenuidade!).
    E assim aconteceu. Subimos no forro na hora da nossa folga que coincidia com a aula de matemática do Ulisses, passamos por cima do telhado, chegamos até a sala, pisamos nas vigas, nos abaixamos e começamos a furar o forro com a gilete do meu pai.
    -Professara, tem rato no teto.
    Grito, berros....
    -Olha, uma caveirinha!!!!!!
    -Vai matusca, desce a sua.
    -Meu dedo não ta entrando no buraco.
    -Faz um buraco maior, cacete!!!
    -Chama o segurança!!!
    -Hiiiiii, ferrou. Vamo embora turco!!!
    -Eles estão no bloco da direita- disse uma voz grossa.
    Saímos em disparada, passamos por cima do telhado e não recolocamos as telhas.
    Assim que nós pisamos na ponte do bloco que dava na saída, uma luz de lanterna ofuscou nossos olhos.
    -Quietinhos!!
    -Não corram, pois estas madeiras estão velhas e podres.
    -Venham devagar, vocês não têm pra onde fugir.
    Daí em diante, você s já sabem. Só não fomos expulsos por ser o nosso último ano.
    Tivemos que pagar o mico de varrer a chão da sala que ficou cheio de pó, e o Ulisses não sabia se chorava ou se ria.
    Fomos para a diretoria e ficamos esperando o Ubirajara.
    Eu e o matusquela começamos a rezar um pai nosso.
    Mas no meio da reza eu perguntei pro matusca:- Cê não é judeu??
    -Nessa hora  vale tudo.
    Nossos pais foram chamados no colégio.
    Meu pai confirmou que as armas do crime eram dele e disse ao diretor que  iria tomar as providencias cabíveis.
    Nesse  dia, ao voltar para casa, não conseguia descer do ônibus.
    Fiz o percurso todo do Machado de Assis por 2 vezes.
    À noite, quando meu pai chegou, me deu uma bela bronca e não me encostou nem um dedinho, pois hoje eu sei que no fundo ele se divertiu tanto quanto eu.
    Muito obrigado Glaura, por me fazer relembrar essa passagem deliciosa da minha vida e poder dividi-la com vocês.
    Um beijo a todos.
     
     
    - William Elias Abdalla


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