OK
Caetano de Campos: A escola que mudou o Brasil

Matérias variadas

  • Quarta-Feira, 11 de Janeiro de 2012
    A Escola Normal e as Escolas de aprendizes marinheiros
  •  Essa história conta como um grupo de professores de São Paulo, em 1911, vindos da Escola Normal  liderados pelo prof. Arnaldo de Oliveira Barreto, ajudaria a Marinha Brasileira a formar a primeira Escola de Aprendizes Marinheiros e em seguida a criação da primeira Escola de Grumetes da América, na Ilha das Cobras,  Rio de Janeiro. Como trata-se praticamente de um relato histórico quero postá-lo em sua íntegra. Tenho que lembrar que no ano anterior, 1910, houve e Revolta da Chibata, onde os marinheiros revoltados pelo tratamento desumano recebido por seus superiores culminou num dos maiores protestos vistos na cidade do Rio de Janeiro.
    O Prof. Arnaldo de Oliveira Barreto, em 1924 tornaria-se o diretor da nossa Escola .
    Obs.: No texto abaixo muitas palavras estão sem acento, pois estou publicando o texto original com uma ortografia antiga.


     Professor Arnaldo de Oliveira Barreto

    “Quando o Almirante Marques Leão assumiu o cargo de Ministro da Marinha tratou entre outros problemas o da elevação de nível moral dos marinheiros e começou pela Escola de Aprendizes.
    É preciso saber que os alunos desta escola eram recrutados entre a ínfima ralé, escória dos subúrbios, crianças que a polícia não sabia onde colocar. Recolhidos assim com estas tristes credenciais ficavam completamente abandonados de qualquer assistência educacional.
    A única intervenção que se fazia sentir em sua vida de desherdados da sorte era a chibata.
    E como castigo os revoltasse ao invés de os corrigir os resultados eram sempre mediocres. Pouquíssimos sairam incolumes do complexo amoral. Recebiam palmatoadas com inteira indiferença e até, parece, porfiavam em resistir à dor.
    Nessa atitude punham grande mérito. Não choravam!
    O sobrecenho pesado pelo ódio latente aos seus superiores, e os ritus de uma vingança sempre em perspectiva, era essa meninada que o almirante Marques Leão quis ajustar aos principios morais.
    Acresce que entre a propria oficialidade havia o preconceito contra o marinheiro e persistiamem que ”marinheiro não precisa saber ler”.
    Vencendo pois todos esses preconceitos o ministro da Marinha dirigiu-se ao governo de São Paulo ao qual pediu professores. O pedido era algo indefinido pois tinha-se então por certo que para aprendizes de marinheiro só a chibata. Eram indivíduos inadaptaveis ao meio social.
    Foi incumbido de organizar o ensino da Marinha o prof. Arnaldo de oliveira Barreto, mestre e educador notavel com larga folha de serviços prestados ao seu proprio Estado. Era como se diria hoje um verdadeiro técnico no assunto.
    O prof. Arnaldo para iniciar a grande obra que o almirante Marques Leão queria realisar na Marinha, escolheu um grupo de professores de sua inteira confiança afim de dar um ponto pequeno o arcabouço do que seria seu plano.
    Convidou os professores Waldomiro Silveira, Renato Braga, Cimbelino de Freitas e Evonio Marques.
    A primeira escola foi instalada num predio velho da ilha das Cobras e como era uma unidade experimental pouca importância se deu. Todavia os mestres que se incumbiram de a organizar, levavam consigo não somente a competencia e certo tirocinio pedagogico, mas um intenso entusiasmo.

     

     Edificação na Ilha das Cobras

    E para orientá-los, o grande espirito de Arnaldo de Oliveira Barreto.Os obstaculos e os trabalhos exaustivos não conseguiram exaurir a força de vontade. Para melhor atacar o problema adotou-se inteiramente a organização do grupo escolar de São Paulo, desde os programas até os processos e metodos de ensino, a assistencia moral.
    Em quatro salas daquele velho predio da ilha das Cobras começou a estrutura de uma grande esperança para o proprio país.
    Logo se evidenciaram resultados insofismáveis e diante disso resolveu o ministro da Marinha autorizar o prof. Arnaldo a contratar novos mestres paulistas.
    A nova turma contou, entre outros, dos professores Possidonio Sales, Wenceslau Arco e Flexa, Armando Madureira, Afonso Porto, Licurgo Pereira Leite, Sud Menucci, Roberto Teixeira Pinto, Raul Felix Meira, Liberalino de Oliveira, Alfredo Ferreira, Jeremias Sandoval, Melchior do Amaral Melo, Henrique Meira, Americo Introini, Phidias Martins Bonilha,etc.
    Nos primeiros contactos, alunos e principalmente a oficialidade que, diga-se de passagem não receberam esses educadores de coração aberto. Contribuiu para o ressentimento o prestígio que o almirante Marques Leão lhes deu investindo-os das prerrogativas de oficiais com posto de capitão tenente e determinando mesmo que se fardassem. Desse modo foram vistos até certo ponto como intrusos. Mas aos poucos foram-se deixando vencer pela atitude irrepreensivel dos profesores paulistas, pela sua dedicação ao trabalho e capacidade na execução de um programa de objetivos que se entremostravam, já de alto valor civico e social.
    Relata-se o seguinte episódio verificado com o prof. Waldomiro Silveira:
    Houve por parte dos alunos atitudes de indisciplina. Como todos esperavam, o professor teria de manda-los para o castigo, isto é submete-los às chibatas de acordo com a extensão da falta. Mas o educador paulista entrou por outro caminho. Fez uma preleção moral. Procurou encontrar o coração daqueles animaizinhos selvagens.
    E conseguiu. Ao toque de rancho dado pelo corneteiro a classe ainda estava sendo submetida a pressão moral e sentimental. Os alunos choraram, fato virgem naquele ambiente e que constituiu objeto de atenção do comandante e de outros oficiais, sendo levado ao conhecimento do ministro da Marinha. Este foi à ilha das Cobras e compreendeu que a escola se renovava e que os processos de castigo evoluiram para um sentido humano.
    Quando do primeiro exame compareceu o proprio ministro que levou consigo o Presidente da República. O exito foi incontestavel e brilhante. Alem dos elogios do almirante Marques Leão, receberam o professor Arnaldo Barreto e seus auxiliares, elogios do Presidente da Republica em Ordem do Dia.

     

    Marinheiros em 1910

    Com a nova turma de professores foram criadas escolas no molde da ilha das Cobras em todo o litoral do Brasil e, ao que se diz, em numero de 20. As que comportavam 200 alunos na matricula tinham quatro professores e as de 100, dois.
    Em todos os logares, pois, em que se colocaram professores de São Paulo nas escolas de aprendizes os resultados foram surpreendentes. E Segundo informações de varios desses professores a oficialidade, a principio desconfiada entrou logo em contacto cordial de onde se originaram solidas amizades.
    Com a morte do Almirante Marques Leão foi substitui-lo o almirante Belfort Vieira que proseguiu no mesmo programa prestigiando com entusiasmo o prof. Arnaldo Barreto e seus auxiliares.
    Ampliou-se então o ensino criando-se a Escola de Grumetes, curso complementar do que era ministrado pelos professores paulistas e de onde os aprendizes saiam para frequentar, então escolas de carater puramente técnico. Foi a primeira escola de grumetes criada na América. As autoridades da Marinha resolveram fazer a sua instalação no Cruzador “ Andrada”sendo mais tarde transferida para bordo do “Tamandaré”. Pouco depois morre tambem o almirante Belfort Vieira sendo substituido provisoriamente por um general do Exercito até que assumiu a pasta da Marinha o almirante Alexandrino de Alencar. Para as escolas de aprendizes de marinheiros foi um desastre. Aferrado por velhos preconceitos a respeito da condição de marinheiro, desde logo mostrou-se infenso a que se prosseguisse a obra iniciada com tanto exito e que continuava a dar os melhores resultados. Removeu a escola de grumetes para Angra dos Reis, fechou a escola de aprendizes do estado do Rio afim de prejudicar a orientação política do seu adversário Nilo Peçanha, então presidente daquele Estado. Com esse grande obstaculo o prof. Arnaldo de Oliveira Barreto deu por terminada a sua missão e comunicou aos seus auxiliares que cada um tomasse o rumo que lhe conviesse. Nessas condições o quadro de professores da armada não foi criado e grande parte dos professores paulistas se retirou.
    Todavia o rastro luminoso de uma inteligente administração ficou na historia da Marinha refletindo-se na do professorado paulista como das mais brilhantes demonstrações. "

     

     Ilha das Cobras- Rio de Janeiro


    Fonte: Poliantéia comemorativa dos cem anos da Escola Normal de São Paulo-1946



    Voltar